Perseguindo o Amanhecer - Ricardo Lugris

28/11/2015 - Singapura

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O ritual e a rotina são exatamente os mesmos na primeira hora da manhã.
Repetidos tantas vezes nos últimos meses, os gestos e movimentos se tornam inconscientes, quase mecânicos.
Preparar valises, guardar objetos cotidianos, com cada coisa em seu lugar, em uma metodologia e rigor que habitualmente não me pertencem.
A sequência que implica em vestir o equipamento pessoal de proteção lembra vagamente, e em suas devidas proporções, o momento em que o toureiro termina de colocar o seu traje de luzes na expectativa de entrar na arena.
Essa rotina que me acompanha há quase cinco meses, tem o seu último ritual nesta quente manhã de Novembro na capital da Malásia.
Hoje, percorrerei os últimos 400 km que me separam de Singapura.
Entre Kuala Lumpur e a cidade-estado de Singapura, uma excelente autoestrada me conduzirá ao extremo da península Malaia, na latitude quase da linha do equador, e ponto final desta extraordinária viagem.
Nesse trajeto onde simplesmente preciso conduzir relaxado e sem dificuldades a motocicleta, sob um sol clemente de menos de 30 graus, vou recordando lugares e momentos que se mesclam entre si no turbilhão da minha recente memória.
Como esquecer o rigor e a dificuldade das estradas da Sibéria e da Mongólia?
Como não recordar os espaços de liberdade que essas mesmas estradas e distâncias permitem quando se está no trânsito asfixiante de Tóquio ou de Seul?
Como não recordar o amanhecer frio da estepe Kazak quando se percorre aldeias e templos na umidade tropical do Camboja?
Como esquecer as águas cristalinas e frias do lago Baikal quando se está mergulhando no tépido e delicioso Oceano Índico?
Como não lembrar de refeições irreconhecíveis com o receio de que o alimento fosse saltar do prato e, como não ter a lembrança de sabores, paladares e temperos inigualáveis?
Como esquecer os sorrisos de tantos rostros, os inúmeros polegares erguidos em gestos solidários, ou a criança que desde o carro retira a chupeta com uma mão e te envia um beijo com a outra?
Como esquecer dias intermináveis em procedimentos de fronteira ou em estradas sem-fim com uma barra de chocolate e uma garrafa de água como companhia?
Como não recordar maravilhosas jornadas de inalcançáveis horizontes e entardeceres de muitas cores que jamais deveriam ter terminado?
As distâncias hoje, são apenas peças na gaveta da memória, mas tem a força e a perenidade similares a tatuagens em tua alma.
Singapura está ali, diante de mim, em um confuso, exigente e estressante processo para poder ingressar a moto nesse minúsculo e metódico país.
Em um final anticlimático, por exigência das autoridades e por questões de economia em função de um obrigatório seguro da moto de custos astronômicos, sou obrigado a colocar a Mobilete que se encontra em perfeito estado, em um caminhão de reboque para levá-la ao depósito da companhia navieira que a transportará de volta à França.
Uma moto que não teve o menor problema técnico ao longo de toda a viagem e que me conduziu por sitios e paisagens de sonho, termina a sua missão injustamente na carroceria de um caminhão.
Prefiro, portanto, pensar que a estou conduzindo em triunfo, também como o toureiro quando este termina uma grande atuação.
O caminhão se torna em meu íntimo reconhecimento, um pedestal para essa fiel e extraordinaria máquina que, como diz um amigo, produz sonhos em movimento.
Ela sem dúvida fez por merecer ser carregada nos últimos 30 km desta viagem.
É, em qualquer caso, menos de 0,1% da distância que percorremos juntos.
Nestes momentos de pessoal satisfação e um reservado sentimento de realização vou me aproximando do destino último da viagem, um simples e desorganizado depósito de carga curiosamente localizado no sexto andar de um prédio residencial...
Não há ninguém que me espera, nem música, nem champanhe nem comemoração.
Simplesmente um armazém onde, pela última vez, descarregarei a moto e, sem esquecer de remover a bateria, a colocarei para "dormir" até a sua chegada dentro de um mês, ao porto de Le Havre, na França.
Na solidão de um depósito quente e abafado, enquanto volto a me organizar mais uma vez, vem à minha mente e a meu coração imagens e nostalgia de pessoas de meu entorno que ocupam um lugar especial na sela traseira dessa moto ao longo desse lindo e inabitual percurso e em todos os dias de minha vida.
Como não pensar em Graça, minha companheira e parceira de todo o sempre e também de muitas outras viagens em duas rodas por esse mundo curioso e provocante?
Como não reconhecer seu desprendimento e proverbial generosidade em aceitar minha ausência por tanto tempo, simplesmente em nome de um sonho?
Como não pensar com saudades em minhas filhas, e em meu filho/genro, Paloma, Luana e Nicolas, que apoiaram e entenderam o empreendimento e determinação deste pai habitualmente inquieto?
Também tenho um pensamento de carinho e orgulho para meus pais que do alto de suas mais de oito décadas, ainda tem a coragem de desbravar Facebook e computadores para poder acompanhar as andanças de seu filho cigano.
Como igualmente não perceber e reconhecer o carinho de tantos amigos que, pessoal ou virtualmente, estiveram em minha companhia vivendo e preocupando-se todo ao longo de meu percurso com uma essencial e bem vinda presença?
Meus textos seguramente trouxeram algo de novidade e de informação sobre lugares e momentos, assim, modestamente espero.
Neles, procurei passar meu sentimento, minha emoção e a consciência do privilégio de poder estar ali, vivendo e tentando compartir essa única e especial experiência.
Tenho plena consciência de que meus relatos são habitualmente longos e sei que podem tornar-se eventualmente entediantes ou mesmo, desinteressantes.
Não é possível produzir 45 textos recheados de momentos permanentemente vibrantes e de aventuras humanas extraordinárias em uma simples viagem de motocicleta onde apenas retratamos a realidade e o momento presente em que vivemos
Mesmo assim, termino este percurso com quase 1000 pessoas a virtualmente acompanhar meu andar e, o retorno que recebi através de animadores comentários de gente que em muitos casos não conheço pessoalmente, é extremamente reconfortante e encorajador.
Mostra, mais uma vez, um belo aspecto da simpática e desprendida solidariedade das pessoas.
Sou, portanto, grato a todos pela paciência e assiduidade.
Muita gente certamente viajou comigo.
Em nenhum momento senti-me só, graças a essa presença virtual onde as distâncias e os fusos horários não fizeram nenhuma diferença.
Se a saudade de minha casa e de minha família não fosse tão grande, se o retorno à minha vida profissional não se fizesse urgente e, se o tempo me permitisse, confesso que poderia voltar pelo mesmo caminho que percorri, simplesmente para poder mostrar o meu reconhecimento e gratidão a tanta gente simples e boa que encontrei ao longo desse trajeto.
Aos que não se portaram tão bem comigo, e foram muito poucos, agradeceria também por me ensinar que a paciência e a tolerância são características importantes em qualquer ser humano e certamente, um desafio para mim.
Meus queridos amigos, Mark e Jacqueline que, com seus filhos me esperavam em sua bela casa de Singapura para uma simbólica taça de champanhe e alguns poucos dias de convivência, antes do esperado retorno aos meus pagos e à minha própria casa quentinha, representam e resumem todas essas pessoas que se preocuparam comigo.
Por coincidência, ou não, eles estavam ali, em Gouvieux, em minha casa em Julho, no exato momento em que dei início a esta viagem, no que me parece agora há muitos anos-luz.
Ali, se emocionaram em me ver partir com uma motocicleta carregada de felicidade e expectativa.
Hoje, como bons amigos que são, demonstram uma emoção carregada de orgulho por me ver chegar em sua casa, literalmente no outro lado do mundo.
Brincando, lhes disse ao chegar:
Meu Deus, como vocês moram longe!
Espero hoje, após ter visto e vivido o que vivi, simplesmente ser alguém um pouquinho melhor e entender mais profundamente o nosso confuso mundo assim o ser humano em sua paradoxal diversidade comum.
Volto para minha casa muito feliz e quiçás com algo novo em meu interior.
Volto para a terra onde vivo para me juntar à resistência de todos contra um inimigo recente, inesperado, brutal e covarde.
Nada é hoje como como foi há cinco meses.
Tudo será entretanto melhor,se insistirmos em manter nossos valores e, sobretudo fazer viver nossos pequenos-grandes sonhos.
Um sincero e imenso agradecimento a todos que tiveram a paciência de ler estas (e tantas outras) linhas.
Ricardo Lugris Has Gone East.
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Comentários (4)

3/2/2017 01:22:41
PKED4P3QTLU
I think the Righties are worried that taxing noxious emissions will eventually lead to taxing stupidity...an economic argument Ive been making for years now. A more market-based approach has already been tried with a stupidity trading mechanism known as the American entertainment industry, but the results have been unyrtisfactoas.
 
5/10/2016 11:40:58
JOÃO
Bela matéria.
 
28/6/2016 15:36:38
NTNEEJRN
Dag nabbit good stuff you whenrirspappeps!
 
10/12/2015 09:33:21
CÉLIO BENÍCIO
Estimado Ricardo Lugris
Obrigado por compartilhar tanta informação, emoções e experiências!
Foi um prazer enorme viajar com você através dos seus relatos.
Forte motoabraço,
Célio Benício
BH-MG-Brasil

 

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