Perseguindo o Amanhecer - Ricardo Lugris

09/11/2015 - Kawthong

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Desembarco no pequeno e triste porto de pesca ao mesmo tempo que a tempestade tropical chega com intensidade sobre Kawthong em uma espécie de alegoria do momento político do país. Águas de Março, em novembro.
Estou na Birmânia, hoje batizada por sua ditadura militar, de Mianmar.
Sou recebido ainda no cais, sob um aguaceiro de dar inveja a Gabriel Garcia Márquez em sua Macondo, por um homem que lembra Andy Garcia em uma versão mais caseira e com menos acabamento.
Olhos injetados, dentes vermelhos, cabelo e pele escuros, vestindo o tradicional longhi, o sarong local, (que substitui a calça comprida para os homens), ele me intercepta e o que segue é uma cena absurda, se levarmos em conta o lugar, o tempo, as pessoas e o momento presente.
"Andy Garcia" , cospe uma saliva vermelha como seus dentes, e me pergunta:
Quer comprar viagra?
Decidi, desde Ranong, na Tailândia, cruzar ao Mianmar, para, considerando o particular momento político que vive este pequeno e pobre país do sudeste asiático, onde acontecerão eleições gerais, (as primeiras em mais de 50 anos de ditadura militar) previstas em menos de 36 horas, poder viver esse dia e ter uma pequena percepção dos anseios e inquietudes desse povo pobre e sofrido, no limite de sua esperança e, assim, à queima-roupa, a primeira coisa que me dizem ao chegar é, se quero viagra?
O mundo decididamente não é justo.
Digo ao Andy Garcia que não quero viagra. Ele me pergunta então se prefiro cialis, vem da Índia, completa.
Digo com um sorriso, que não prefiro nada, ainda.
Ele ri uma risada vermelha, me olha de cima a baixo e faz cara de incrédulo.
Acho que não me levou a sério.
Tem lógica. Um ocidental, de meia idade que vem de lancha desde a Tailândia através do mar de Andadam, só pode ser para comprar viagra e retornar ao paraíso de suas tranquilas férias.
E é bem verdade, que cheguei ao Mianmar por meios pouco ortodoxos.
Em Ranong, no sudoeste da Tailândia, deixei minha moto no hotel e consegui contratar uma lancha que me levaria à Ilha de Kyum, pertencente à Birmânia (o Reino Unido, que não reconheceu o novo nome ainda a chama assim), e que tem um hotel-cassino frequentado por tailandeses e chineses, para quem o jogo de azar é uma perpétua obsessão.
O controle de passaportes de Mianmar se faz no cais dessa mesma exclusiva ilha.
Como não tenho visto de entrada, meu passaporte ficará retido pelos policiais durante minha estada no cassino, até meu retorno à Tailândia.
Uma vez que tenho o passaporte retido, tomo uma pequena barca do outro lado da ilha-cassino para me levar ao continente e, assim poder conhecer Kawthong a cidade no extremo meridional Dec Mianmar.
Ao negociar com o lancheiro para me levar ao porto de Khawthong, chamo a atenção de Win Mynt, discreto e educado, falando um bom inglês que, na qualidade de coordenador de visitas no hotel-cassino, se oferece para me acompanhar nos vinte minutos que dura a travessia, dizendo que precisa ir à cidade para algumas compras e que por uma taxa de 10 dólares poderá ser meu guia em um tour pela cidade.
Como não tenho "nem lenço nem documento" , em Mianmar, melhor jogar no lado seguro e contar com a companhia de um cidadão local, em caso de uma eventual inquisição de papéis por autoridades em uniforme.
Além do mais, ele poderá ser uma boa fonte de informação sobre o estado de espírito dos birmanos a propósito de suas primeiras eleições livres em mais de 50 anos de ditadura militar.
Com a chuva diluviana que nos recebe no porto, corremos, Win, Andy Garcia (que ainda, entre cuspidas vermelhas e sorrisos da mesma cor, tentava me vender viagra) e eu, para um cansado café, literalmente um boteco de beira de Porto.
Ali, enquanto retiro o excesso de água de minha roupa, percebo baldes pelo chão e penso que devem estar ali para as costumeiras goteiras entre as telhas de zinco do lugar..
Andy Garcia me mostra quase que imediatamente, a finalidade desses estratégicos baldes, colocados pelo proprietário.
São "escarradeiras", algo inexistente e inaceitável nos dias de hoje em nossa parte do mundo.
Servem para que as pessoas possam cuspir o betel, cujas folhas os Birmanos mastigam em permanência e que lhes dá uma espécie de excitação, semelhante à folha de coca na Bolívia e o khat no Yêmen.
A consequência desse hábito é a coloração vermelho-sangue nos dentes, um ar um pouco "chapado" e, também em decorrentes da falta de baldes, as ruas ficam tingidas de púrpura pelas calçadas.
No bar, me oferecem um chá que tem a mesma cor vermelho-telha. Inquietante.
A impressão é péssima, mas o chá é delicioso.
Não sei do que é feito e não tenho coragem de perguntar.
Nossa mesa se compõe de Win, meu guia, que em função do aguaceiro ainda não pôde exercer sua atividade; Andy Garcia, o jovem dono do bar, e eu.
Lá fora, sob um mundo d'água, a vida em Macondo-Kawthong parece se desenvolver de forma absolutamente normal. Deixe-que-chova, deve ser a filosofia
Reparo em casais passando de moto, protegendo-se com a ajuda de apenas um guarda-chuva.
Acho graça em uma pequena moto ocupada por três indivíduos, onde o condutor usa um poncho de plástico e os dois outros ocupantes se cobrem com a parte traseira desse poncho, dando a impressão de ser um camelo.
Olho para meu chá vermelho e penso nos dentes de Andy Garcia de Macondo.
Preciso lembrar de escovar os meus, assim que chegar ao hotel.
Com a natural hospitalidade desta gente simples, formamos ali, isolados pela chuva, um improvável grupo de discussão política às vésperas das eleições que definirão meses de campanha e décadas de esperança para este sofrido país.
A esperança se deposita em Aung San Suu Kyi, "A Dama", a carismática líder e ferrenha praticante da "resistência passiva" de Ghandi, com a qual vem enfrentando e gradualmente vencendo o regime militar da Birmânia após vários anos de prisão domiciliar e restrições severas à sua liberdade individual.
Brilhantemente retratada recentemente em um belo filme de Hollywood, ela mesma, apesar de liderar seu partido, não pode ser candidata à presidência por ser casada em um estrangeiro e ter filhos de nacionalidade Britânica.
Um detalhe incluído na constituição pelos militares para justamente impedi-la de chegar ao poder.
Mesmo assim, presente em todos os lugares, seu rostro ilustra camisetas e bandeiras e, sem dúvida, preenche o coração da grande maioria de seus compatriotas.
Mas a dúvida e o medo existem e persistem.
Enquanto converso e observo as reações de meu improvável grupo de novos amigos no confinamento de uma tempestade tropical, lembro dos belos versos de "Apesar de Você" , canção do Chico, composta durante a ditadura militar no Brasil:
"Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu"
Nesta distante mesa de um triste bar, onde pessoas e paredes transpiram na mesma intensidade, onde em um país remoto e quase esquecido, palpita a esperança, reconheço os olhares prudentes em torno de si e a baixada de tom para expressar sua opinião sobre o presente regime.
Vivi isso com 18 anos.
A causa, tem um nome: repressão.
Há muitos que temem a mudança, me diz o dono do bar.
Os monges budistas não querem a Dama pois temem a radicalização da minoria muçulmana, 20% da população e hoje pária, excluida de qualquer cidadania e um dos pontos condenados severamente pela comunidade internacional.
Aqui, completa Andy Garcia, os monges tem muito poder e influência.
A chuva vai diminuindo e nossa conversa não chega a uma conclusão. Não há jamais conclusões em processos políticos, penso eu.
O que é certo, é que temor e esperança são hoje parceiros deste povo.
Enquanto escrevo estas linhas, no dia das eleições, e de onde me encontro, ainda não sei qual desses dois substantivos prevaleceu no Mianmar.
Pelos menos, torço para que as eleições tenham sido tranquilas, livres e representativas.
Após um curto passeio com Win pelo mercado, onde com alegria recebo de presente de uma militante uma bandeirinha do Myanmar acompanhada de uma bandeirinha vermelha da " Liga Nacional pela Democracia, partido da "Dama" e que "guardarei renitente", como o "velho cravo" na tambem canção de Chico Buarque.
Retornamos à Ilha-cassino-da-fantasia, no mesmo país, porém visivelmente de um outro mundo.
É quase um choque.
O meu dia de clandestino na Birmânia deixou sem dúvidas, impressões fortes.
Fico com medo de também cuspir vermelho no impecável piso de mármore do hotel-cassino.
Em tempo: A Esperança e confiança no futuro venceram em Mianmar. Yes!

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Comentários (3)

3/2/2017 01:18:42
NC5P09VGMXTA
CONGRATS on your win Donna!!!! You know Ill be voting for ya!!!And oh my am I ever in love with this little Angel Sop!hai!!! That Dazzling Diamonds technique is one of my faves!! What a special card for your precious little Gabby!!!
 
28/6/2016 15:52:21
WVUMHVFNF
I think youve just captured the answer peefrctly
 
19/11/2015 11:18:03
CELINA PEDROSA
continuo acompanhando e curtindo! abraço!
 

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