Perseguindo o Amanhecer - Ricardo Lugris

06/11/2015 - As Metrópoles - Bangkok

Clique na foto para ampliá-la
 
Em longas viagens de moto, como a que estou a realizar, as metrópoles, sobretudo capitais, não fazem para mim propriamente o ponto alto, a melhor parte do percurso.
Confesso que tenho uma certa resistência a entrar, cruzar, permanecer e sair dessas grandes aglomerações, geralmente difíceis de se localizar, de se situar, de se identificar e mesmo de encontrar o seu próprio lugar entre outros milhões de seres de nossa raça que vivem e circulam nesses enormes formigueiros.
Em posts anteriores, marquei essa minha certa resistência e desconforto ao me fazer engolir por essas cidades que muitos, em viagens de turismo normal e corrente, consideram habitualmente fascinantes.
Muitas vezes questiono essa minha falta de assimilação em uma grande cidade.
Será quiçás, porque em minha vida profissional tive a oportunidade de viajar muito e perdi um pouco da curiosidade em conhecer novos lugares?
Se isso é verdade, por quê continuo a querer conhecer países, paisagens e caminhos e somente nas metrópoles é que me sinto deslocado?
Em post anteriores, falei minha falta de referência em uma das cidades sabidamente mais charmosas e interessantes no mundo: Tóquio.
Tampouco me senti confortável em Moscou, que conheço bem, e nem em Seul, que tampouco cheguei a conhecer, preferindo gastar meu tempo escrevendo e preparando o envio da moto para a Tailândia.
Há duas semanas estive em Vientiane, a confusa e quase-desconhecida capital do Laos.
Sem poder se comparar com as megalópoles mencionadas acima, é mesmo assim, uma pequena metrópole que representa exatamente a situação econômica e social do Laos, e nada mais do que isso.
Ali, instalado em um hotel e tendo reservado todo um dia para conhecer a cidade, tive a mesma sensação de perda de referência, de limitada motivação para visitar seus (poucos) pontos de interesse..
Mesmo assim, por uma dessas coincidências que só a viagem pode proporcionar, ali, ao passar diante de um restaurante francês, decido oferecer-me um jantar para comemorar os 25000 km percorridos até então.
Ao entrar, sou recebido em um ambiente de restaurante tipicamente da França colonial.
A proprietária me indica a mesa com uma certa frieza e me propõe a louza com o menu do dia.
Prefiro pedir do menu uma velha e boa sopa de cebola e um "confit de canard", acompanhados de um "pichet" de vinho tinto.
Percebo que há mais de dois meses não provo vinho.
Digamos que nesse momento com um cálice de tinto na mão, me sinto tranquilo e feliz, quase com saudades da França.
A sopa de cebola, um clássico da cozinha tradicional francesa, me é servida com uma receita totalmente revisitada pelo Chef do restaurante , e o resultado é muito bom.
Já o prato principal, o clássico "confit de canard", a coxa de pato, foi recriado por ele com um molho de frutas vermelhas!
Para alguém que não gosta de misturar frutas na elaboração de pratos, o resultado foi frustrante.
A proprietária percebeu meu desconforto e impaciência, pois eu não havia, na minha alegria em poder comer algo habitual após três meses em terras exóticas, reparado que no cardápio estava escrito qual era o molho.
Falha nossa!
Mesmo assim, terminei minha refeição e, para melhorar o clima e meu humor, a proprietária convida para que me junte à mesa de seu marido, o Chef, no terraço do restaurante que se encontra nesse momento, após preparar meu jantar, em animada conversa com alguns franceses residentes no Laos.
Nessa mesa, entre outras pessoas agradáveis e divertidas, conheci Hugues, um francês, funcionário da Embaixada da França em Vientiane que viveu por 15 anos no Brasil.
E por coincidência, também motociclista.
Aproveitamos para jantar juntos no dia seguinte e, no momento de deixar a cidade, Hugues, com sua GS 650 Sertão, acompanhou - me até os arredores da capital.
Seguramente voltaremos a nos encontrar em uma de suas eventuais idas a Paris.
Esses pequenos encontros, e a hospitalidade de desconhecidos, muitas vezes mudam completamente a nossa percepção do lugar, trazendo a dose certa de humanização e acolhida que precisamos todos quando em viagem.
Alguns desses encontros se transformarão naturalmente em sólidas amizades, obviamente, sempre que , houver afinidade e interesses em comum.
E assim deve ser também com um casal franco/britânico, Stephane e Khalia, que conheci na piscina do hotel em Siem Reap, no Camboja.
Cruzei com eles na interessante visita ao complexo de templos e palácios de Angkor, e voltamos a nos encontrar no hotel, ao final do dia, antes de minha partida.
São pequenas coincidências de horários e roteiros que te fazem acreditar que simplesmente as coisas não acontecem por acaso.
Em Angkor passam, por dia milhares de turistas.
Algo massivo, mesmo agressivo, para essas construções de muitas centenas de anos que sobreviveram a invasões, guerras, ao tempo e à selva.
Hoje, sofrem muito mais com a visita de milhares de turistas como eu, ávidos de fotos e que por serem tão numerosos, acabam por aparecer uns nas fotos dos outros.
Não há lugar que possa ser registrado em foto sem a presença de um colega turista.
Mesmo assim, Angkor, em seus inúmeros templos e palácios, merece ser visitado e admirado como um dos mais importantes monumentos arquitetônicos na história do homem.
O Camboja lucra com essa indústria selvagemente turística e a quantidade de grandes hotéis em funcionamento em Siem Reap, a cidade vizinha aos templos, é prova disso.
No meu segundo dia nesse paraíso turístico, decido por um programa alternativo, bem mais interessante e muito mais humano.
Vou visitar um museu de minas terrestres, conhecer melhor seus efeitos nocivos, e também o drama que esses artefatos impõem a uma população simples, inocente e pacífica nas aldeias do interior do Camboja.
Esse museu e centro de acolhida de crianças órfãs e mutiladas pelas minas, foi fundado por um ex-soldado do Khmer Vermelho, de nome Aki Ra.
Arregimentado aos 10 anos de idade como criança-soldado, Aki Ra viveu durante 20 anos em várias guerras na região e foi, segundo ele mesmo, responsável pela colocação de milhares dessas minas anti-pessoal.
Ao final do conflito, influenciado por sua esposa jornalista, este antigo soldado, baseado em sua experiencia e profundo conhecimento desses explosivos, fundou uma organização sem fins lucrativos, para "limpar" o Camboja dessa terrível ameaça que paira sobre a cabeça, ou melhor dizendo, sob os pés de grande parte da população rural do país.
Seu trabalho e o de sua equipe vem sendo reconhecido por vários países e organizações internacionais como corajoso e de grande valor para seus compatriotas.
No centro de acolhida, conheci uma menina de 17 anos que perdeu um olho e uma perna ao tentar trazer uma vaca que se perdera.
A história mais incrível, e ao mesmo tempo terrível, é a de seu próprio pai, que perdeu uma perna nos arredores da aldeia onde eles viviam.
Apoiado por uma ONG, conseguiu fazer reabilitação e ganhou uma prótese mecânica para sua perna.
Nos meses seguintes, tentando socorrer pessoas feridas por minas, pisou duas outras vezes nesses artefatos espalhados por extensas áreas em sua região.
A sorte fez com que nessas duas vezes seguintes, ele pisasse com sua perna mecânica, destruindo-a, mas sem danos físicos ou consequências para si.
Com um grande sorriso, ela acrescenta que seu pai ganhou o apelido de "Lucky" (Sortudo), no seu vilarejo, mas que a consequência negativa para ele dessa sorte foi que as ONG's não querem mais lhe fornecer pernas mecânicas...
O ser humano é realmente capaz de encontrar algo de humor em qualquer situação, por mais absurda que ela possa parecer.
Essa visita aportou compaixão e humanidade.
Tomar consciência uma vez mais que este é um mundo onde a crueldade e a inconsequência humana pode ter poucos limites.
Deixo na manhã seguinte o hotel em Siem Reap e me dirijo para a fronteira com a Tailândia, através de 400 km de condução esportiva, desviando, sempre que possível, de motoristas que insistem em me forçar a sair da estrada.
Em Bangkok, com a mesma sensação de resistência à cidade grande, me obrigo a passar dois dias para mesmo assim, conhecer a capital do Reino da Tailândia.
Chego ao centro e ao hotel reservado, em uma sexta-feira ao final da tarde, com uma temperatura de 38 graus.
Uma cidade com ares decadentes, onde os fios elétricos e telefônicos imperam.
Fachadas com manchas de umidade nos seus edifícios, trânsito impossível e os milhares de carrinhos servindo comida na rua, dão a tonalidade, os ruídos, os aromas e sabores a uma cidade que não conseguirá jamais ser bonita, mas que, como São Paulo, México e Caracas, guarda uma dinâmica e energia muito particulares a ela mesma.
Deixo o hotel pela manhã em um tuc-tuc, para, vestido de turista, visitar alguns templos e monumentos históricos.
O pequeno veículo me deixa no lugar errado.
Tento me localizar por meu guia turístico com um certo grau de dificuldade.
Em sequência, três "nativos simpáticos" me abordam oferecendo ajuda.
Na verdade, após duas ou três perguntas de rotina: de onde vem, para onde vai, etc, me oferecem para ir ver um comércio de gemas, um comércio de pedras preciosas.
Quando digo que não quero comprar nada, abandonam a atividade de ajuda e apoio ao estúpido turista ocidental, dão as costas e vão embora.
E é nesses momentos, em meio a uma metrópole na Ásia, sem ter muita certeza de onde ir que, por alguns instantes, você se sente completamente só.
Isso jamais me acontece quando estou conduzindo minha moto, em qualquer estrada, de qualquer lugar do mundo.
Após finalmente localizar e visitar What Pho, o complexo de templos mais conhecido de Bangkok, prefiro ir para a confusão e ebulição do seu bairro chinês, onde acabo propositadamente por me perder em ruelas e passagens durante o resto da minha tarde.
Em função dessa estranheza que me abate nas grandes cidades, e que após um pouco de análise atribuo fortemente ao fato de que nesses dias de visita como um turista comum, renuncio à minha moto.
Como passei por um par de experiências desse tipo, adotei o procesimento de fazer, de moto e com a ajuda do GPS, um longo recorrido pelas ruas e bairros ao chegar a essas grandes cidades.
Isso ajuda a me situar melhor e também manter a minha peculiar identidade como motociclista em viagem.
Não tenho, em hipótese alguma, a intenção de mudar, ou adaptar minha maneira de viajar. É de moto e, ponto.
Assim, descubro com alegria, que quando estou recorrendo uma metrópole com minha moto e visito os sítios de interesse, esta também contribui para o contato inicial carregado de curiosidade que as pessoas tem em relação a alguém viajando em uma grande motocicleta.
De Bangkok, saciada minha tênue curiosidade, decido visitar Hua Hin, o lugar de praia favorito da elite da capital tailandesa, situado na costa do Golfo da Tailândia, a 200 km de distância da capital. .
Permito-me dois dias nesse confortável lugar e começo a perceber que é sempre muito fácil para o corpo e para o espírito acostumar-se ao conforto e ao bem estar.
Para sacudir meus sentidos e evitar a acomodação, viro o guidon para oeste e vou novamente na direção da Birmânia, hoje chamado de Miamar.
Desta vez, tentarei passar a fronteira, a 400 km de distância ao sudoeste de de Hua Hin, pelo menos para dizer que estive nesse misterioso país que deverá realizar decisivas eleições nos próximos dias.

clique na foto para ampliá-la
Ricardo Lugris  
clique na foto para ampliá-la
Ricardo Lugris  
clique na foto para ampliá-la
Ricardo Lugris  
clique na foto para ampliá-la
Ricardo Lugris  
clique na foto para ampliá-la
Ricardo Lugris  
clique na foto para ampliá-la
Ricardo Lugris  
clique na foto para ampliá-la
Ricardo Lugris  
clique na foto para ampliá-la
Ricardo Lugris  
clique na foto para ampliá-la
Ricardo Lugris  
clique na foto para ampliá-la
Ricardo Lugris  
clique na foto para ampliá-la
Ricardo Lugris  
 
 
 
Bookmark e Compartilhe
 

Comente

Nome
E-mail
Comentário
Escreva a chave:
UJQD
 abaixo