Perseguindo o Amanhecer - Ricardo Lugris

23/10/2015 - Montanhas do Norte da Tailândia

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Deixo a pequena pousada em Mae Salong, nas montanhas do norte da Tailândia para, aproveitando o belo dia e as magníficas paisagens, deslizar a moto para o leste, pelas encostas e colinas, curtindo o vento fresco no rostro e uma sensação de mudança no ar.
Estou há dez dias na Tailândia, percorrendo o montanhoso norte e já sinto que é hora de colocar as rodas de minha moto para descobrir outras paragens.
A Tailândia é um país fácil de amar. Tem exotismo, uma cultura sólida e singular, belas paisagens, impressionantes monumentos e, acima de tudo, um povo conhecido por sua hospitalidade e simpatia.
Mae Salong é bastante particular nesse sentido.
Encravada nas montanhas junto às fronteiras com a Birmânia e o Laos, foi colonizada por chineses há 50 anos que fugiam do regime de Mao e se dedicaram ao cultivo da papoula para a produção do sinistramente conhecido ópio. A cidade fala chinês.
Mesmo assim, cruzo com algumas pessoas das tribos das montanhas, entre elas, um grupo de meninas, uma gracinha, vendendo braceletes de tecido e sementes, que acrescentei à decoração de minha moto.
Aqui, estou no 'Golden Triangle', de onde saía a produção da droga para a China e seus "Opium Dens" e também para outras regiões, ao longo muitos anos e de muitas vidas arruinadas por essa antiga e terrível droga.
Controlados pelo governo Thai, esses produtores, semi-bandidos, passaram a ter que se dedicar a outras culturas, tais como o chá, que em Mae Salong tem uma altíssima qualidade.
Você entra em qualquer salão ou café no vilarejo e é brindado com uma taça do melhor chá, completamente gratuito.
A Tailândia conserva apenas duas fazendas de papoula de caráter legal, para a produção do ópio de uso farmacológico , ainda hoje um poderoso analgésico.
Aparentemente, essa flor é cultivada clandestinamente do outro lado da fronteira, para onde me dirijo.
Quase toda a produção mundial de ópio ainda vem do norte do Laos, assim como uma grande quantidade de Yai baa, a metanfetamina, droga dada a conhecer amplamente no famoso seriado americano, "Breaking Bad".
A fronteira terrestre entre a Tailândia e a República Democrática Popular do Laos, que como todos os países que se intitulam "democráticos e populares" não são nem um, nem outro, é um país de relevo acidentado e longas extensões de florestas de acesso difícil onde ainda vivem centenas de elefantes, ursos e alguns tigres que sobrevivem penosamente aos caçadores ilegais.
Nos anos 60, durante a guerra do Vietnam, as forças norte-vietnamitas utilizaram o Laos como base de apoio e via de escape, contando com a simpatia dos comunistas locais.
A CIA, decidiu então armar e treinar a etnia Hmong habitantes das montanhas do norte, que se opunha aos comunistas, para combater o vietcong no Laos, iniciando uma guerra secreta que durou até 1973, com a retirada dos americanos do Vietnam, abandonando os Hmong à sua própria sorte.
Para complicar a vida do vietcong, durante nove anos os US despejaram no Laos 260 milhões de bombas "cluster", submunição de efeito retardado, das quais 80 milhões ainda estão sem explodir, espalhadas pelo leste e norte do país, mutilando e matando milhares de pessoas ao longo de todos esses anos.
A passagem de fronteira entre os dois países se dá pelo Rio Mekong, na recentemente construída "Ponte da Amizade".
Ambos países construíram vistosos prédios para os postos de migração e fronteira, no seu respectivo lado da ponte.
Chego ao posto Tailandês e sou prontamente atendido pelo chefe da Imigração que, aparentemente pelo pouco movimento de gente nesta fronteira, não tem muito o que fazer.
Gostou da moto e decidiu encarregar-se de mim pessoalmente.
Para fazer os procedimentos burocráticos, meus e da moto para sair da Tailandia, sou solicitado a fazer 18 cópias xerox de 6 documentos diferentes, pagar algumas taxas e também sou obrigado a pagar a viatura policial que me escoltará com a moto até o outro lado da ponte, que de amizade, não tem nada, sobretudo se levarmos em conta a quantidade de arame farpado em ambas as margens do Mekong...
Chego ao posto do Laos uma hora depois, sem maiores dificuldades.
Os uniformes dos funcionários e militares, e as bandeiras com a foice e o martelo não deixam dúvida a respeito de qual é a ideologia ainda reinante e dominante neste país.
O Laos é um desses países que escolheu a liberalização da iniciativa privada dentro do comunismo, a exemplo da China e do Vietnã.
Tenho a convicção de que a pior coisa que pode acontecer a um país pobre, é tornar-se comunista. Esse regime, só pode funcionar, se funcionar, em países ricos onde alguma riqueza ainda pode ser compartilhada.
Solicito o exigido visto de entrada na chegada ao Laos, pago 30 dólares, tenho o carimbo de entrada estampado no passaporte e passo aos procedimentos de Alfândega para a moto onde uma muito jovem agente de polícia, com o certificado de matrícula da moto na mão, me pede o "document" da mesma.
Levo algum tempo e algo de energia para explicar que ela tem exatamente esse documento nas mãos...
Após pagar mais algumas taxas, faço câmbio de moeda, recebo milhões de Kips a moeda local do Laos, que se troca em 8000 por um dólar e estou liberado para percorrer este exótico país, considerado em 2014 como o melhor destino turístico no mundo inteiro.
Sob um sol a prumo e uma pegajosa e úmida temperatura de 34 graus, entro com expectativas e a curiosidade palpitando em um novo território com a inestimável ajuda de meu guidon.
Imediatamente sou forçado a perceber a pobreza e abandono de suas aldeias e o completo mau estado das estradas e ruas.
O asfalto dessa via que conduz ao norte do país é esburacado e instável pois cada buraco que se forma durante a estação das chuvas é "reparado" com terra, sem muito cuidado ou zêlo..
Assim, fica pior a "emenda que o soneto ".
A região a leste do grande rio Mekong com suas turvas águas de cor vermelha, é de montanha e florestas. Ali, vivem ainda centenas de elefantes em estado selvagem.
Na Tailândia, acabei por não ver nem elefantes, nem mulheres -girafa, nem tampouco homens-elefante e nem ao menos, girafas..., se as houvesse.
Retiro de minha valise o mapa do Laos que comprei nas Filipinas e que se revela extremamente providencial pois o GPS não está funcionando como deveria.
Não disponho de informação suficiente no navegador.
Ou seja, ele me dá as distâncias, mas não as direções. Caprichos do mundo digital.
Por sorte, posso me servir dos velhos marcos de quilometragem e distâncias instalados juntobas estradas pelos franceses há mais de 80 anos.
Na França, são chamados de "bornes" que hoje equivale a dizer quilômetro.
Dirijo-me ao norte do país, quase na fronteira com a China, e decido ficar em uma cidadezinha suja, com jeito de fronteira remota, uma arquitetura dos tempos franceses.
Velha, decadente e mal cuidada, frequentada por ocidentais em busca de experiências novas na selva e nas montanhas, essa é Louang NamTha.
Ali, encontro uma pousada onde me alugam um chalé com um insuportável cheiro de mofo e que sou obrigado a aguentar apesar de minha longa história de intolerância a esse elemento alergênico.
Tomo bem cedo a única estrada para Luang Prabang, e que me levará inicialmente para o norte, girando em seguida para o sul até o destino desse dia.
Em linha reta, são apenas 100 km entre as duas cidades.
Pela estrada entre montanhas, serei obrigado a percorrer 380 km de péssima rodovia, compartilhada com caminhões tailandeses e chineses e automóveis do Laos com peculiar e agressiva condução, sem falar nas centenas de motocicletas de baixa cilindrada, veículo popular e alma da logística deste curioso país e que mais parecem aprendizes de kamikazes.
Entre montanhas, as aldeias se sucedem, pobres, onde animais domésticos tais como, galinhas, porcos, patos e cães, todos acompanhados de seus inúmeros filhotes, dividem o espaço comigo na estrada, enquanto cruzo a zona habitada.
As casas de palha e bambú, lembram a casinha do mais preguiçoso dos Três Porquinhos. Se o lobo-mau, ou um tufão soprarem, foi-se!
Chama minha atenção a grande quantidade de crianças, semi vestidas ou mesmo nuas, que ficam na beira da estrada, com um risco enorme, muito perto da passagem dos veículos. Sorriem e acenam quando passo, em uma sequência de inocentes e adoráveis rostinhos sujos.
Já os animais, não se importam com minha passagem ao ponto de eu dar de cara com uma vaca amamentando seu bezerro no meio da pista na saída de uma curva.
Todo cuidado é pouco e fico feliz por não ter a chuva, pois o saibro da superfície da estrada, na ausência de asfalto, se tornaria certamente escorregadio como sabão.
O jogo de pneus que instalei no Japão são para asfalto (não havia outro, já que no Japão não há estradas não asfaltadas...), exigindo assim, muito cuidado na superfície de terra.
Um ponto positivo é que o Laos, por ser uma ex-colônia francesa, tem a circulação pelo lado direito, muito mais natural para mim, em caso da necessidade de uma reação defensiva com a moto.
Assim, maravilhado com o aspecto selvagem e a beleza da paisagem e, por outro lado, chocado com a limitação de condições de vida de seus habitantes, que reagem à minha passagem como se eu fosse um ser de outro planeta (e talvez seja), vou desviando da fauna e evitando veículos de quatro rodas que teimam em cortar as curvas deixando-me um mínimo de espaço e tempo para desviar.
Espero chegar a Luang Prabang, uma jóia do período colonial do Laos, hoje ponto incontornável no turismo do país e cidade classificada no Patrimônio da UNESCO, antes que escureça. Pois à noite, todas as motos são pardas.
Ali, em Louang Prabang, um pequeno hotel à beira do majestoso Mekong me espera com uma reserva e tomarei um dia de turista para ir ver os elefantes do que foi chamado um dia a "Terra de Um Milhão de Elefantes".
Hoje, eles não passam de mil, sendo que apenas a metade em estado selvagem.

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Comentários (6)

3/2/2017 00:48:39
VIK6AQIW6
Seeing the earth spin would be amazing! Try to have a strong conclusion to your paragraph, it ends too quickly.Quick Fix: I is always a capital letter; use ‘want to’ rather than ᱶwanna–
 
29/10/2015 11:35:06
RICARDO LUGRIS
Caros amigos, seus comentários me deixam feliz. São verdadeiramente generosos. Um grande abraço a todos e obrigado por lerem minhas linhas.
 
28/10/2015 19:58:27
RTAVARES
Caro Ricardo,
Parabéns, sua aventura me fez relembrar um passado também de muitas aventuras que tenho saudade. Hoje não posso mais depois de um acidente que me deixou fora do circuito, mas posso admirar grandes Aventuras como a sua. Que Seu Anjo guardião lhe proteja muito. E continue trazendo para nós estas alegrias. Abraços e boa sorte.
 
27/10/2015 14:14:17
MARCELO REBEQUI
Sr.Ricardo,

Estou impactado por estas fotos, isso que é coragem, o Gugu que me apresentou o seu site, e realmente me surpreendi, preciso sentar com minha senhora e planejar um estilo de vida igual ao dos Srs.no futuro, meus parabéns.

Att,

Marcelo Rebequi
 
27/10/2015 14:05:29
ACIR BUENO DE CAMARGO
Parabéns Ricardo.
Não o conheço pessoalmente, mas somente por ouvir dizer. Seu relato me dá mais força para fazer uma viagem por essa região.
Ano que vem vou para a África, Europa, etc., mas apesar de já ter dado a volta ao mundo de moto, não me julgo em condições de fazer o que vc faz.
Abraços e continue nos brindando em excelentes textos e fotos maravilhosas.
Boa sorte
Acir
 
27/10/2015 12:25:22
OTAVIO ARAUJO GUGU
Quando me perguntam qual o maior motociclista do BRASIL eu não titubeio, tenho uma pronta e inquestionável resposta: Ricardo Lugris.
Menino... nessa vc se superou, quando crescer quero ser igual a você.
Suas viagens e aventuras fazem as minha parecerem meros passeios... kkk
Mandem fotos no meu e-mail, morro de curiosidade!!!
Grande e fraterno moto abraço a vocês dois, sigam com o Criador.
Gugu - Taubaté - SP
 

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