Perseguindo o Amanhecer - Ricardo Lugris

16/10/2015 - Tailândia

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Ele não deve ter mais do que cinco anos de idade. Sentado em seu descomposto triciclo azul diante do pequeno bar de chão batido e delabrados bancos de madeira, em algum lugar à beira da estrada, não muito distante da margem tailandesa do rio Mekong.
O menino observa, de boca aberta e olhos arregalados como dois botões, a minha chegada ao espaço de estacionamento com essa enorme e barulhenta motocicleta.
E fica ali, a apenas dois metros da moto, sem se mover, até que corto o motor, desmonto, e retiro o capacete.
Nesse preciso momento, o pequeno tailandês levanta-se de seu triciclo, dá três passos acelerados em direção ao interior do bar e imediatamente percebe que havia deixado à mercê do "monstro" o seu bem mais precioso, e volta em um só movimento para arrastar pelo guidon para um lugar mais seguro, a sua amada bicicletinha azul.
Deparo-me com uma construção simples, de meia água. Apenas teto e colunas, como é conveniente E usual em um países de temperaturas e umidades tropicais.
Esses lugares, de economia informal aqui na Tailândia fazem às vezes de restaurantes, cafeterias e bares para os viajantes locais.
Sem muito cuidado na organização, e sobretudo na limpeza, tudo parece pouco convidativo para uma pausa de viagem, com exceção dos sorrisos de boas vindas e da hospitalidade dos proprietários e seus clientes, sobretudo quando se trata de um estrangeiro que os honra com uma visita.
É verdade que em se limitando aos inúmeros McDonald's e SevenElevens da vida, você jamais entenderá como é o país e o povo.
O contato se faz sempre necessário para uma melhor percepção do lugar e de sua gente.
Como dizia Milton Nascimento, "todo artista tem de ir aonde o povo está". Isso também se aplica ao motociclista.
E a Tailândia é assim, um país onde o povo se comunica e faz contato através de sorrisos.
Onde quer que você vá, será sempre recebido com um sorriso acompanhado de gestos espontâneos e suaves de pura amabilidade.
Na Rússia, onde estive por quase 40 dias no início de meu atual percurso, as pessoas têm dificuldade em expressar sentimentos e tem um conceito diferente do que seja a hospitalidade.
Um país de gente individualista, como outros que conheço, onde oferecer tem sempre e invariavelmente, relação com futuro compromisso e retorno.
Sem dúvida, há muito mais solidariedade nos países temperados e evidentemente, entram aqui outros fatores para essa equação; como o hábito de encontrar estrangeiros; e a filosofia de vida aberta, embebida na alma coletiva de sua gente.
E o pequeno triciclista continua me observando, sempre a uma distância prudente e segura.
Sua avó, proprietária do "estabelecimento", tenta conversar comigo, fazendo perguntas em um inglês "fartamente" limitado.
Perguntou se eu era casado, ao mesmo tempo que apontava para uma de suas filhas, sentada ao fundo do local e dava uma espécie de tenebrosa gargalhada.
Para deixar claro, disse que eu era casado, e que tinha duas filhas, e pedi um café para não continuar o assunto.
Enquanto tomava um café com gelo, muito bem preparado e bastante popular por aqui, pensava em como poderia fazer para conquistar o garoto que se escondia debaixo do balcão e que, sempre arredio, continuava a me observar com um olhar que passeava entre o curioso é o desconfiado.
Tento ir falar com ele, mas ele desaparece atrás dos móveis.
Vou então até a moto, retiro uma caixa de chicletes que levo sempre na bolsa do guidon e volto ao meu lugar, não sem antes colocar bem visível, a chamativa embalagem vermelha sobre a mesa, à vista dele.
A sua avó, visivelmente de vocação alcoviteira, pergunta novamente sobre meu estado civil, com um olhar estranho.
Não dou atenção a ela, apenas sorrio, e mostro o chiclete ao garoto.
Ele finalmente sorri para mim.
Estou progredindo, penso eu.
Vejo chegar uma família que pede o que quer comer com facilidade, a ser produzido na caótica cozinha ao ar livre da simpática birosca pela minha quase-futura noiva.
São massas em ensopado de peixe do Mekong e legumes, com um forte componente de pimenta, mas que apesar de tudo, parecem deliciosas.
Acho que vou pedir o mesmo prato.
(Se eles sobrevivem, eu também sobreviverei )
Alegres e falantes, os recém- chegados decidem praticar um pouco de seu inglês comigo.
Os tailandeses não falam muito inglês mas fazem um grande esforço para se comunicar, assim, quando falam, tem sempre um sotaque que lembra algo assim como uma língua-código. Dessas que os americanos usavam na segunda guerra mundial para falar ao rádio sem que o enemigo pudesse chegar a decifrar.
Levando em conta a simpatia natural desse povo, a conversa fluiu até que de maneira bem divertida.
Na Tailândia, há três elementos de união, de congregação e de identidade nacional:
A família, a religião e o rei.
Os Tailandeses andam sempre em família, de bando, e gostam até de produzir e vestir camisas da mesma cor para toda a parentada quando viajam e assim serem identificados como um particular núcleo familiar.
Ou, quiçás para não perder a sogra de vista, sei lá.
A religião, por sua vez, está em todas as partes e em todas as formas onde se pode retratar a figura de Buda, e que, curiosamente, segundo o budismo, deveria ser alguém sem nome, sem forma e sem rostro.
O budismo é, como se sabe, mais do que uma religião, é um modo de vida, uma filosofia existencial.
Algo que, se a Harley Davidson descobrir, vai seguramente transformar em logotipo para sua próxima campanha comercial.
Os monges budistas, estes, são um caso particular.
Estão em todas as partes com seus mantos de cores vivas, sempre para lá e para cá, sem que se saiba exatamente o que fazem.
Pelo que percebo, fazem questão de não fazer nada.
Meditam. Isso, seguramente.
Pensam na vida, na ínfima presença do homem diante da grandeza do universo mas, infelizmente não são capazes de juntar o lixo e entulho que se acumula na frente dos templos na periferia das cidades, onde não há turistas.
Proíbem visitantes de entrar no templo de ombros de fora, o que eu acho corretíssimo, mas, eles mesmos andam semi-nus, apenas cobertos por seus inconfundíveis mantos.
Pregam e praticam a pobreza e o despojo mas carregam celular, relógio e cartão de crédito na sua bolsa a tiracolo.
São pobres mendigos, porém venerados, onde muita gente se coloca de joelhos, prostrados em reverência à sua passagem.
Enfim, seus mantos laranja dão o colorido às fotos de neófitos visitantes como eu. Fazem parte da paisagem.
São também gentis, e cheios de paciência com as gafes e constante desrespeito da parte de ignorantes turistas ocidentais que acham interessante fotografar um monge em meditação no templo colocando a câmera no seu rostro impassível, como se este fosse uma imagem inanimada.
Outra coluna na estrutura organizacional do país é o rei Bhumibol, conhecido também como Rama IX, nascido em 1927 nos Estados Unidos, quando seu pai estudava medicina por lá e que reina desde 1946.
É o monarca que mais tempo está no poder no mundo inteiro e um dos mais ricos entre as cabeças coroadas.
Quem sabe a Rainha Elisabeth queira bater o recorde dele, em longevidade e fortuna?
Os Tailandeses são profundamente monárquicos, e veneram seu rei e rainha, quase tanto quanto veneram o Senhor Buda. Da monarquia retiram seu orgulho nacional em uma grande unanimidade.
Pensando na realeza, em meu pequeno boteco de beira de estrada, vejo que meu almoço está servido.
Na Tailândia e em vários países da Ásia, curiosamente, se come de garfo e colher, não de garfo e faca.
A comida vem normalmente cortada, portanto, faz mais sentido a colher do que a faca.
A avó de meu arredio amigo desiste de me arregimentar como genro, me dá como caso perdido, e se contenta em me ter como cliente.
Finalmente, se volta para a moto junto à qual faz questão de fazer uma foto.
Minha refeição está deliciosa e o Pequeno continua me observando de través enquanto cautelosamente volta a circular com seu triciclo azul.
Nestas latitudes, de gente amável, espontânea e aberta, você, mesmo assim, vai se sentir realmente estrangeiro em duas ocasiões:
A primeira, é nos preços que paga e no ingresso a ser abonado nos templos e museus onde somente estrangeiros pagam.
A segunda ocasião, mais intensa e inquisitiva, se encontra no olhar das crianças locais.
Olhares longos , curiosos, prescrutadores, indagadores e, as vezes, desconfiados, como neste caso do Pequeno em seu triciclo azul.
Através desse olhar, sempre verdadeiro, nos sentimos irremediavelmente diferentes.
Um exemplo disso aconteceu em 1982 quando eu viajava por Onitsha, no leste da Nigéria e decidi caminhar pelas ruas da cidade ainda semi-destruida pela guerra da Biafra, dez anos antes.
Parei em uma banca de frutas e, enquanto escolhia algumas mangas, se aproxima um menino da mesma idade deste Thai de hoje e fica me olhando.
Suavemente, segura de minha mão, lambe os dedos da sua e os esfrega no dorso de minha mão, como se esperasse que sob minha cor, aparecesse o negro da pele que ele estava acostumado a ver até então. Aparentemente eu era o primeiro homem branco que ele via em sua vida.
Meu Pequeno desafio colocou agora o triciclo ao lado de minha moto e parece me dizer, sempre com o olhar:
Veja, eu também tenho uma motoca!
Aproveito a abertura e lhe ofereço o já desejado chiclete.
Ele hesita, olha para seu irmão mais velho como se procurasse aprovação, e se aproxima de mim.
É neste momento que eu tenho a imagem e o gesto mais bonitos de toda a minha viagem.
Um gesto representativo desta fabulosa cultura onde humildade e gratidão se tornam forças extraordinariamente poderosas na mão de cada indivíduo, por mais jovem que ele possa ser.
Tenho o chiclete na mão para que ele o apanhe.
Antes, de tocar o doce, ele, do alto de seus 4 ou 5 aninhos, me olha nos olhos, baixa a cabeça e o olhar, ao mesmo tempo em que traz as duas mãos espalmadas diante do peito e agradece da maneira budista, da maneira oriental, da maneira Thai o que vai receber de mim.
Fiz a foto pois esperava registrar o momento em que ele recolheu o doce que lhe oferecia e dávamos por encerrado o período de desconfiança e familiarização entre nós, partindo para uma definitiva e incondicional amizade.
Seu gesto, de uma grande delicadeza e profundidade cultural, me emociona.
Ele, como budista, agradece antes de receber.
Nós, decadentes ocidentais quando o fazemos, o agradecimento vem DEPOIS de receber, nunca antes.
Em seguida, após me mostrar sua superioridade espiritual, meu pequeno amigo, como qualquer criança, dá uma lambidinha no chiclete para testar o gosto e o põe na boca com um grande sorriso, voltando ao seu triciclo e ao seu estado universal de criança que é.
Não vou tão cedo esquecer esse delicado e espontâneo gesto de agradecimento pois o tenho registrado na melhor foto de minha viagem.
Se pudermos, em cada um de nós, ter algo de crianças que sabem confiar e agradecer, de monges com telefone e cartão de crédito e de mães alcoviteiras que fazem um bom café e uma excelente cozinha, a vida terá muito mais cor, muito mais sabor, mais ternura e, seguramente, muito mais bom humor.
A vida assim chegará a ser quase tão saborosa quanto o chiclete oferecido por um desconhecido, na esperança de que seu gostinho dure um pouquinho mais...

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