Perseguindo o Amanhecer - Ricardo Lugris

10/10/2015 - Seoul

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Há momentos em qualquer viagem em que nosso único recurso é fechar os olhos, chamar uma profunda introspecção e pedir paciência a si mesmo.
Entrar em Seoul, ao final de 640 km, sob uma chuva penetrante e já de noite, tem sua boa dose de demanda psicológica.
Moderna, intensa, enorme, impressionante.
O trânsito, às 19h é denso, porém, disciplinado.
Muita gente nas ruas.
Todos usam terno escuro, camisa branca e gravata discreta e caminham apressados, com uma expressão severa e preocupada no rostro.
Quase esqueço dessa faceta da vida.
Não posso entrar na capital da Coréia pelas autovias expressas.
A lei coreana não permite motos em autoestradas.
Sou, portanto, obrigado, por regulamentação local, a entrar na grande metrópole por vias secundárias e seus incontáveis engarrafamentos e semáforos.
Sinais com ciclos de mais de um minuto para chegar ao verde, dão a oportunidade de observar o meu entorno e refletir um pouco sobre ele.
Aquele pedestre desavisado que corre pouco antes da mudança do sinal, o motorista que aproveita o vermelho para enviar seus textos e aquela gota de chuva oportunista que teima em penetrar, sem ser convidada, pelo colar de meu casaco.
É impressinante como a água acaba por se infiltrar em qualquer equipamento de moto, por melhor que este seja. Cedo ou tarde, ela vai entrar.
Meu GPS, baixado gratuitamente por Internet, serviu-me enormemente para as estradas pelo interior da península coreana mas não consegue localizar o pequeno hotel que reservei no centro da capital.
Não se pode virtualmente pedir tudo.
Vejo, em um dos semáforos, um táxi disponível.
Peço, por gestos, a ele que encoste mais adiante para lhe perguntar se conhece o hotel em questã, ou o lugar em que ele se encontra.
O taxista não fala inglês.
Explico, com a reserva do hotel na mão e sempre por mímica, (estou ficando bom nisso), que ele deve ir até lá e eu o seguirei pagando a corrida.
Ele não reconhece o endereço ou o hotel, isso é mau sinal.
Parece mesmo desconfiado.
Digo então, com o gesto dos dedos em forma de telefone junto à orelha, que ele ligue para o estabelecimento e peça indicações de como chegar.
Após uma conversa telefônica que, sob a chuva, me pareceu excessivamente longa, ele me diz, sempre com o clássico e já conhecido gesto de antebraços cruzados, que o hotel está fechado.
Devolve-me o papel e dá por encerrada a atividade comigo.
Parte abruptamente e sem mais dizer.
Fico ali, no meio de uma megalópole, à noite, sob a chuva , a pensar que raios estou fazendo neste lugar.
Decididamente, quando viajo de moto não gosto de grandes cidades.
Todo o prazer que tenho em percorrer belas paisagens, entrar em sublimes vilarejos e encontrar pessoas do interior, é contraposto ao estresse da grande cidade e a pouca paciência de seus quase-paranóicos habitantes.
Seoul está, contudo, no meu roteiro simplesmente por razões práticas.
Ponto fundamental na logística desta viagem, aqui vou precisar organizar uma série de atividades visando a continuidade de minhas andanças pela Ásia.
A revisão de 60 mil km da moto se faz necessária, assim como terei que me encontrar com Wendy Cho, a despachante aduaneira que deverá organizar o envio de minha moto, por via aérea, a Bangkok, na Tailândia, de onde darei continuidade à minha longa e interessante viagem.
Como disse anteriormente, a travessia da China se revelou inviável em razão de imposições administrativo - burocráticas desse país e os custos envolvidos. Placa chinesa, Habilitação chinesa, guia chinês com carro chinês, total: mais de 7 mil dólares americanos.
Assim, uma moto de 300 kg por avião a qualquer lugar não é tarefa nem simples, nem barata.
Uma série de detalhes devem ser vistos e previstos para evitar desastres de complicadas consequências.
As dimensões da moto precisam ser adequadas ao tamanho do compartimento de carga da aeronave que a transportará.
O combustível, reduzido ao mínimo pois qualquer veículo, a bordo de uma aeronave, é considerado como "Carga Perigosa" e embarcado com, no máximo, dois litros de combustível no tanque e a bateria devidamente desconectada.
Também uma embalagem, de madeira será fabricada para a moto em questão, segundo suas medidas.
No caso de minha BM, em função de suas "discretas" dimensões, serei obrigado a retirar o párabrisa e os retrovisores para não exagerar no tamanho de sua caixa.
A documentação, obviamente tem que estar perfeitamente em ordem e é também fundamental ter um endereço e um agente alfandegário no destino, para assegurar a retirada de Alfandega e do deposito jo aeroporto.
Preciso inicialmente localizar e organizar a revisão da Mobilete no concessionário BMW;
encontrar quem fabrique a embalagem para a moto segundo as normas internacionais de transporte aéreo e, alem do mais, com "madeira certificada", para evitar problemas sanitários;
tenho igualmente que encontrar um contato em Bangkok que me permita utilizar seu endereço e telefone e;
uma empresa ou indivíduo que tenha acesso às autoridades alfandegárias e à companhia aerea para retirar a moto no aeroporto de Bangkok.
Sem mencionar, finalmente, que ainda é importante negociar o valor do frete, inicialmente estimado em 2.900 USD. Excessivo, para apenas 3 horas de vôo.
Com todos esses detalhes ocupando meus pensamentos, chego ao centro de Seoul, um tanto quanto levado pelo fluxo de automóveis, sem ainda ter a menor idéia de onde se encontra o hotel que reservei.
Como em tudo na vida, uma pequena dose de boa sorte é necessária e ela chega sempre no bom momento.
Pergunto novamente a um taxista estacionado em uma rua de restaurantes e, surpresa, ele fala um bom inglês, liga para o hotel, aceita os 10.000 Wan (10 USD) que eu lhe adianto e pede que eu o siga. Life is easy.
Eu me encontrava a menos de 500 m do hotel reservado.
Bom negócio para o táxi e um alívio para mim.
Os dias seguintes serão ocupados em organizar, com paciência monástica e oriental, cada um dos passos necessários à transferência da moto, para a Tailândia, continuação desta jornada.
Com a ajuda da recepção do hotel, contato a concessionária BMW Moto de Seoul e consigo horário para para a revisão da moto nesse mesmo dia, o que é fundamental para um seguro e confiável prosseguimento de meu périplo.
Até agora, em mais de dois meses de estrada, essa formidável peça de tecnologia tem rodado como um relógio suíço. Apenas troquei óleo e pneus e estou apresentando a moto para a segunda revisão da viagem.
Desde o concessionário, enquanto espero pela moto, envio uma mensagem à despachante e marcamos uma primeira reunião para o final dessa mesma tarde. Tudo começa a se colocar em marcha.
Documentos são conferidos e estão em ordem. E, mais uma vez, meu bom amigo Bruno vem a meu auxílio com um providencial contato em Bangkok.
Já tenho então o endereço requerido pela Korean Air para enviar a moto. Um problema a menos.
Através da mesma companhia aérea consigo também a indicação de um bom agente aduaneiro na Tailândia.
Pouco a pouco, as peças desse razoável quebra-cabeças vão se encaixando, mas é preciso manter o foco e concentração para não deixar nenhuma oportunidade para a célebre "lei de Murphy".
A moto estará em trânsito entre Seoul e Bangkok por 4 dias.
Decido então dar um salto a Manila, que não conheço, e passar uns dias com um primo, Roberto e sua esposa, Ana Rita, que residem nas Filipinas.
Será um momento de descontração e de repouso, após 10 semanas de atenção e foco na atividade de conduzir uma moto por terras estranhas, caminhos desconhecidos e uma enorme limitação de comunicação.
Wendy, a despachante coreana, trabalha com eficiência e consegue uma empresa para embalar a moto.
Com habilidade e diplomacia, conseguimos reduzir o frete com a Korean Air para 2200 USD.
Ainda é caro, mas já aceitável.
Meus três dias em Seoul são gastos em reuniões e organização. Vejo a capital coreana "en passant" com minha moto e de táxi.
Quase não visito a cidade. Pelo que vejo, ela lembra São Paulo.
Uma vez preenchidos todos os pontos do check list de logística, (que vou compartilhar em um proximo post, caso seja util a algum outro motociclista) para a boa continuação da viagem e tendo já um horizonte claro de visibilidade para receber a moto em Bangkok, acompanho a "cerimônia" de encaixotamento da moto e dos bagageiros, em atividade coordenada, eficiente e profissional realizada por três jovens coreanos.
Fazem um trabalho de "primeira", como se diz em minha terra. Em menos de uma hora constroem uma caixa personalizada, instalam e ancoram a moto, a cobrem com filme plástico e fecham a caixa. Posso ir embora.
Deixo os documentos de importação temporária com um deles, que levará a moto ao aeroporto em seu caminhão e tomo o metrô de volta ao hotel.
No trem, vestido em trajes de moto, entre gente de terno-e-gravata e espectro sisudo, sinto-me um pouco desconfortável, diferente, alheio ao mundo que me rodeia.
Algum efeito seguramente estas últimas semanas devem ter produzido em mim.
Há 65 dias não me separo de minha moto. Rodamos juntos duas dezenas de milhares de km.
É estranho, muito estranho, ficar sem ela.
Enfim, preparo - me para partir a Manila nessa mesma noite e passar momentos que serão seguramente deliciosos com gente de minha família.
Roberto é como um irmão para mim, executivo inteligente e experiente, viveu em uma meia dúzia de países. É portanto, sempre um grande prazer poder trocar idéias com ele, ainda que seja por um tempo bem limitado.
Assim, parodiando a famosa frase de um anúncio de televisão, dos anos 50 ou 60:
" O mundo gira e este motociclista, roda".

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Comentários (1)

3/2/2017 01:18:49
4GEAHYWHRRPQ
Time Warner Center in NYC really is a special place, Per Se, Bouchon Bakery, Whole Foods Market, Williams and Soa2&am#8o30;whnt else could a food enthusiast ask for!
 

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