Perseguindo o Amanhecer - Ricardo Lugris

07/10/2015 - Coréia

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Com a inestimável ajuda de um sempre disponível e fiel amigo, Bruno Sureau, ele, atuando desde Madrid, conseguimos baixar os mapas da Coréia para o meu GPS.
Bruno é um grande parceiro de viagens de moto, sempre à postos para dar o remoto apoio quando preciso. Uma espécie de anjo-da-guarda prático, extremamente importante numa viagem como esta.
Com os mapas no GPS, meu problema fica parcialmente resolvido, mesmo porque, apesar de tentar em vários locais, não consigo encontrar um mapa rodoviário da Coréia, ou mesmo guia turístico, em inglês.
Com caracteres em coreano, os mapas rodoviários deste país são inúteis para qualquer estrangeiro. Definitivamente, a Coréia não está preparada para receber turistas fora de Seoul.
Assim, um pouco mais tranquilo, pois pelo menos conseguirei saber onde estou e para onde posso ir, (ainda que com informações limitadas), deixo o pequeno e bem equipado hotel no norte, onde pela primeira vez em 60 dias de viagem, consegui assistir a um filme em inglês. Momento glorioso...
É realmente curioso constatar que em uma vigem como a que estou fazendo, algumas atividades ou hábitos cotidianos ficam totalmente esquecidos, quase abandonados, tais como, assistir filmes, ver as notícias, ler jornais, tomar o seu aperitivo, etc.
Você muda completamente seus costumes e passa a se ocupar de questões muito mais práticas e corriqueiras, como a que expus no primeiro parágrafo deste texto.
Decido então partir em direção ao sul, abandonando a costa, para procurar paisagens e lugares mais interessantes.
Vejo uma indicação em placas de cor marrom , que internacionalmente quer dizer "lugar de interesse turistico" e descubro uma bela estrada que serpenteia ao longo de um rio e de sua bela garganta.
A paisagem é muito atrativa e me traz de volta um pouco o prazer de conduzir a moto, algo que tinha sido reduzido nos últimos dias por ter que rodar às cegas em um país onde o alfabeto é ininteligível e onde encontrar lugares de beleza, em função de seu selvagem avançado estágio de desenvolvimento, é realmente uma tarefa complexa e que requer algo de paciência.
As Rota 36 que estou percorrendo agora, parece realmente ser o lugar onde os motociclistas locais se divertem em suas baladas de fim de semana.
Ainda estou nos últimos dias de um longo feriado e cruzo por várias motocicletas com seus pilotos acenando e cumprimentado em largos e simpáticos gestos.
Faço uma pausa para um café ao lado de algumas motos japonesas estacionadas em linha.
Um dos "colegas" se aproxima e me mostra em seu telefone uma foto de minha moto, tirada há alguns dias enquanto eu visitava a DMZ.
A Coréia não é tão grande, afinal.
Conversamos um pouco, trocamos experiências e amabilidades.
Ele me traz uma latinha de café gelado, muito popular por estas bandas.
Continuo pela adorável estrada que segue em paralelo ao curso de um rio de correderas entre montanhas e vales de cultivo frutífero.
Inicialmente, vejo que são fazendas de ameixas e pêssegos.
Começo a ter vontade de comer uma fruta.
Faço uma pausa em uma tenda e faço entender ao casal atendendo que gostaria de comprar dois pêssegos.
Eles dizem que vendem apenas as caixas completas.
Eu, explico que é muito para mim, apontando a moto.
Agradeço e faço menção de partir.
A senhora então, aponta para uma mesa e banco ao lado da tenda e me convida a sentar.
Em seguida, pega um pêssego e duas ameixas, os lava cuidadosamente e os descasca, cortando-os em pedaços para que eu os coma.
Deliciosas. Exatamente o que eu tinha vontade. Não tenho realmente consumido muitas frutas nesta viagem.
Ao terminar de degustar o suculento fruto, apanho minha carteira e quero pagar.
Ela me faz um gesto negativo e cheio de energia. Nada a pagar!
Junto minhas mãos em frente ao peito em forma de agradecimento. Curvo a cabeça e me levanto.
Antes de que suba na moto, ela vem com mais um pêssego previamente lavado e mais umas 4 ameixas para que eu as leve comigo como presente para a viagem.
Confesso que esses pequenos-grandes gestos me comovem profundamente.
Eles seguramente valem qualquer viagem. São puros, verdadeiros e espontâneos.
É um pouco para isso que estou aqui, percorrendo ha semanas estas terras estranhas e alheias à minha própria cultura.
É principalmente para constatar ao vivo e pessoalmente que o ser humano é o mesmo em qualquer lugar do mundo.
Sua bondade e generosidade pode suplantar largamente algumas mesquinharias e pequenezes.
Eu, seguramente prefiro manter meu foco nesses instantes de comovedora bondade.
Com velocidade reduzida, não consigo esperar e aproveito para ir saboreando as deliciosas e fresquíssimas ameixas que ganhei de presente.
De pêssegos, a cultura local passa a uvas de mesa.
Belíssimos cachos escuros pendem de extensivos cultivos.
Os frutos são cobertos com bolsas de papel, que eventualmente devem servir para terminar a maturação ou evitar o assédio de pássaros que danificaram o perfeito produto.
Encontro um novo grupo de motociclistas e faço uma pausa para socializar.
Eles me passam importantes informações sobre lugares que posso visitar, dando ênfase a um lugar que se chama Hanigot, na ponta de uma bela península no sudoeste da Coréia, a uns 150 km de distância.
Decido fazer desse lugar meu ponto de chegada para esse dia, e não me arrependo.
O mar bate com força no concreto da barreira construída para proteger o pequeno porto e seu farol.
Uma praça extraordinária e um museu que celebram ambos o novo milênio, coroam o pequeno vilarejo coreano.
Chego na caída da noite e como é outono, escurece em torno das 18 .
Um monumento fora do comum chama a minha atenção: uma enorme mão, de bronze, se sobressai na superfície do mar, enorme, implorante, como se pedisse ajuda.
É, ao mesmo tempo, fascinante e angustiante provoca inquietude no eventual visitante.
Fico sabendo que se trata de um monumento à Esperança e ao desejo mais importante na Coréia: a Reunificação dos dois países.
Com a ajuda de uma belíssima lua cheia, faço algumas fotos e encerro um dia que poderia ter sido banal mas que, como costuma acontecer muito frequentemente em uma viagem como esta, se torna único e extraordinário graças a pequenos acontecimentos, experiências, prazeres e momentos.
Durmo essa noite no chão, em uma dura e espartana colchoneta, à moda coreana, um povo que seguramente tem um conceito de conforto bem diferente do meu.
Mesmo assim, adormeço com o som das ondas batendo a poucos metros da janela de meu quarto e com as lembranças de meu pequeno e adorável apartamento junto ao mar em uma praia distante no Atlântico, no sul do Brasil.
O ressonar e a intensidade do mar é a mesma.
O sono, assim, chega rápido, apesar do limitado conforto.

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