Viagem pelo Mar Negro

De Ardahan a Trebzon – Turquia

26 de maio de 2011

 
Passamos uma noite confortável no pequeno e único hotel desta minúscula cidadezinha no Nordeste da Turquia e decidimos fazer a rota para Trabzon onde temos que pegar o ferry para a Rússia dia 27 à noite.

Ligamos as motos às 8:30 hs da manhã, como de hábito, e aqui devo elogiar meus amigos italianos por sua disciplina e pontualidade nas partidas.

Uma viagem em grupo requer uma disciplina bastante rígida para evitar atrasos e jornadas demasiadamente longas desnecessariamente.

A rota que escolhemos para chegar a Trabzon, seria através das grandes montanhas no nordeste da Turquia e as estradinhas prometem ser bastante interessantes nos 450 kms que nos separam do porto de saída para a Rússia.

Como informei antes, esta é a única maneira de chegar a Sochi no Cáucaso russo, pois a fronteira comum com a Geórgia está fechada desde a guerra entre os dois países.

Entramos na estradinha de montanha, meu GPS indica 1600 ms acima do nível do mar. O ar é fresco e claro. Céu azul, o dia promete.

Vamos percorrendo paisagens dramáticas, sempre ao longo de rios de corredeiras e curvas suaves e deliciosas. Vou brincando com a moto. Escolhi SuperTramp no Ipod e vou curtindo minha banda favorita.
O grupo se desenvolve bem, com Cláudio de tempo em tempo disparando na frente para fazer algumas tomadas para o filme que costumamos fazer a cada viagem.














Na metade do dia, tomamos uma pequena estrada bem indicada no mapa e percebemos que os próximos 97 kms deverão ser de terra. Sem invalidar a beleza da estrada, percebo que dois dos três casais que viajam conosco estão tensos. Nessa mesma manhã tinham-se recusado de fazer 5 km para visitar um mosteiro porque era uma estradinha não pavimentada. Confesso que para mim, é super divertido.

Já que não podemos voltar pois teríamos que acrescentar uns 270 kms ao percurso do dia que já é longo em se considerando a condição das estradas, fomos levando pela estrada de terra com nossas pesadas motos.

A minha GSA gosta de terra e hoje vejo na sua incrível suspensão telelever algo que faltava nas nossas arcaicas Hondas XL dos anos 80, do século passado. Quando estou sobre minha GSA em uma estradinha de terra de montanha, lembro dos passeios que fazíamos pelas serras da Mantiqueira e do Mar no interior de São José dos Campos. Eram jornadas inesquecíveis, cheias de adrenalina e profunda diversão.

Infelizmente, para alguns, a estrada de terra pode ser motivo de tensão e stress.
Beppe e sua mulher, em uma passagem de lama foram ao chão. Caindo sobre o braço, ela acabou fazendo uma entorse no punho. Algo sem gravidade mas que a deixou com medo.

Imobilizei o punho, mais como consolo psicológico para ela do que propriamente uma solução. Sugeri ao Beppe de levá-la comigo na garupa e ele aceitou de bom grado. Aproveitei para dar-lhe uma explicação de como rodar na estrada de terra sem que esta pareça ser diferente do asfalto.

O que muda, expliquei a ela, é a forma de conduzir e o nível de atenção que você precisa ter em relação à superfície. Você precisa estar atento a qualquer irregularidade e fazer sua escolha de passagem.
Ela pareceu mais tranqüila e fomos assim, por 60 kms até encontrar novamente o asfalto onde ela passou à moto de seu esposo.

À noite, refletindo sobre estes últimos dias em companhia deste grupo de amigos, cheguei à conclusão que prefiro continuar a viagem sozinho pois os lugares que quero visitar no entorno do Mar Negro não são exatamente os mesmos do restante do grupo.














A viagem em grupo demanda certas concessões , sobretudo com a presença de esposas. A minha, Graça, grande companheira de muitos kms, tem a sabedoria de decidir em qual viagem ela quer, ou não quer, ir.

Alguns parceiros não dispõem de uma esposa com essa sensibilidade e acabam trazendo a companheira para viagens onde as estradas são ruins, os hotéis fuleiros, chove muito, as fronteiras são longas e complicadas, os dias se tornam intermináveis, a comida é esquisita, etc.

Portanto, a minha conclusão é: viagem com parceira em grupo, só se todos estiverem com parceiras.
Esta manhã informei a todos que, na chegada do barco amanhã a Sochi, eu continuarei em torno do mar negro sem me deter nessa cidade que sediará os jogos olímpicos de inverno de 2014. Eles continuarão a seu ritmo e eu, ao meu. Assim evitamos frustrações para todos.

Neste momento, estamos a bordo de um pequeno barco, equipado de 12 cabinas, aguardando para zarpar em direção a Sochi, onde chegaremos amanhã as 9 horas da manhã. A cabine, que divido com três italianos, quase como um dormitório de estudantes, tem três camas e eu já percebi que a minha está quebrada. Falta de sorte. Veremos como estará a minha coluna amanhã.

As motos estão acondicionadas no porão do navio, apoiadas contra a parede contra um velho colchão. Modo ainda não visto de fixar a moto em um navio. Como este aqui é uma “banheira”, pode ser que jogue muito mais do que o previsto ou do que o desejável.

Pela manhã, os procedimentos de imigração e de alfândega russa prometem ser demorados. Tenho minhas dúvidas se não vai dar rolo o fato de que eu não preciso de visto por ser brasileiro. Será que o agente de imigração do porto em Sochi, nos confins do Cáucaso russo sabe disso?
Amanhã eu conto para vocês.
 
 
 
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