As Viagens de Ricardo Lugris

PLACAS

 
Aquela placa posicionada ali, um lugar remoto, ao longo da estrada indicando distâncias remanescentes para as grandes cidades e destinos desde o ponto onde eu me encontrava era, sem maiores análises, algo considerado banal, comum e corrente.

Uma placa como outra qualquer, em um lugar qualquer do mundo.

Retangular, com mais de um metro de altura por um metro e meio de largura, de fundo azul, ou verde, com letras impressas em cor branca refratária à luz, em tudo se parecia às placas de sinalização de beira de estrada que encontramos em nosso próprio país.

O que realmente chamou-me a atenção naquela placa ordinária era exatamente o que ela não tinha de ordinário, nem de comum, nem de banal: O seu conteúdo.

As cidades e distâncias indicadas ali davam o testemunho dos muitos quilômetros que eu havia percorrido na sela de minha motocicleta, metro após metro, quilômetro após quilômetro, desde a partida de minha casa ao longo das últimas semanas.

Minha GSA, de costumeira fidelidade, tinha me levado àquela placa única, exótica, estranha, plantada ali gratuitamente para que eu pudesse encontrá-la como se esta fosse um troféu pessoal, íntimo e inadiável.

Recentemente li um livro extraordinário de Alain De Botton intitulado: “A Arte de Viajar” .

Um mestre na “viagem dentro da viagem”, o autor se detém para descrever o exotismo transcrito em um simples painel de indicação no desembarque do Aeroporto de Schiphol, em Amsterdam.

Na reflexão dessa leitura deixei-me levar pela carícia de minhas memórias, onde as distâncias tem nomes e números no representar desses extraordinários marcos.

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O simbolismo dessas indicações de distância, dessas provas de percurso e, sobretudo desses testemunhos de nossa jornada, não pode passar desapercebido a nenhum viajante com o privilégio de poder passar por elas.

Quando o meio de locomoção é a motocicleta, essas referências de distância se tornam entre outras, românticas, hospitaleiras e carinhosas. Falta pouco para chegar, podemos nos dizer.

Ou, caso falte ainda muito para nosso destino, uma pausa para descanso em algum lugar faz-se mister. Ali, poderemos encontrar pessoas e trocar experiências com aqueles que, na imobilidade de suas vidas de pequeno lugar, muito provavelmente, nunca teriam reparado na história que conta aquela placa de sinalização.

Os nomes de cidades e lugares ali representados tornam-se simplesmente uma seqüência de letras e não significam para eles, habitantes locais o que representam para nós, ciganos em duas rodas: A etapa, a pausa, a descoberta, o destino.

Lembro sempre de uma história curiosa nos tempos das grandes revoluções no Rio Grande do Sul onde, dependendo das convicções políticas vigentes, alguns derrotados viam-se obrigados a exilar-se através da fronteira na vizinha Argentina.

A um militante político e revolucionário de origem simples foi perguntado o que ele faria se o mundo acabasse hoje.

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A resposta veio sem hesitação: Se o mundo acabasse, eu me “bandeava” pras Argentinas....!!

Esta história reflete o quanto limitadas podem ser as fronteiras e os horizontes de quem não tem a oportunidade ou a necessidade de viajar.
Daí, a relatividade das distâncias e a consideração e respeito para com quem nos conta a sua “grande aventura” e esta pode ser apenas uma viagem de fim de semana por território comum e sem maiores novidades para qualquer um de nós, velhos ratos de estrada..

Precisamos lembrar que, para este motociclista, foi uma grande viagem.

O importante, sem dúvida, é poder ter a coragem de partir

É corrente quando viajamos por terras distantes, não sermos capazes de ler, interpretar, ou entender o que está escrito na placa de beira de estrada pois ocasionalmente, visto que rodamos muito, ela estará representada por caracteres muitas vezes em árabe, farsi, cirílico, georgiano ou armênio, alfabetos irreconhecíveis para simples mortais cujo domínio exclusivo do alfabeto latino não é suficiente para a interpretar a mensagem estampada nesse cartaz.

Nesse momento crucial que poderia se tornar uma séria dificuldade, não fosse o advento do GPS, nos sentimos verdadeiramente distantes de casa e solitários.
O exotismo dessa simples placa, muitas vezes sofrida e maltratada por passantes com tiros de pistola e carabina, se revela em sua plenitude e em nosso íntimo como um reconhecimento pessoal das grandes distâncias percorridas desde o momento em que deixamos nossa casa..

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Sempre defendi a idéia de que em uma viagem de motocicleta não interessa realmente o destino. O que interessa é sobretudo, percorrer.

Chegar, em minha opinião, é apenas uma decorrência do percurso

Nesse caminho, essas simples placas, escritas em língua local, apresentando cidades que muitas vezes sonhamos ao ler livros de aventura como Istambul, Baku, Teerã, Ashgabat, Tiblissi e Samarcanda, se tornam reais e ao alcance das rodas de nossa motocicleta.

Somos nesse momento, personagens de obras de Rudyard Kipling, T. E. Lawrence, Ibn Battuta e outros que nos fizeram sonhar com aventuras e aventureiros em terras e países distantes e exóticos.

Nesse momento, diante daquelas distâncias, somos definitivamente mestres de nossos horizontes.

Que mensagens interessantes nos trazem essas placas!

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Elas nos falam, nos consolam, e até nos elogiam pelo nosso humilde e anônimo feito pessoal que ter ido até ali e ter também percebido que ela, a placa, com suas distâncias únicas, existe e tem uma função poética!
Seu objetivo fica preenchido em sua totalidade no momento em que nos detemos para fazer uma foto onde atrás de nós se lê: Moscou 220 km!

Lembro que quando propus meu primeiro artigo à Revista Duas Rodas, há mais de 10 anos, o então Editor Chefe, Cícero Lima , com toda sua experiência, disse-me que não enviasse fotos para ilustrar esse artigo ao lado de placas indicativas de quilometragem.

Muito justamente, ele queria decorar sua revista com belas fotos de paisagens que fizessem jus ao bom texto que as acompanhava.
Está claro que o caráter íntimo e pessoal de cada placa, quando chegamos até ela, não pode ser transferido para o domínio público.

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O sentimento que nos invade ao nos encontrarmos em um ponto qualquer do globo onde pouca gente teria chegado em uma motocicleta, mesmo que este ponto seja um lugar como Ushuaia onde muita gente vai, não invalida nosso mérito pessoal e nosso orgulho de termos cumprido o que nos propusemos ao início de nossa viagem.

A cada vez que passo por uma placa interessante, seja ela indicando Ubatuba, Uagadugu ou Kirshinau, tenho a tendência a reparar nela agradecendo a oportunidade que tenho de poder trazer minha moto ( ou será o contrário?) até este lugar.

O mesmo escritor, Alain de Botton disse:

“A viagem é parteira de pensamentos”


Somados à intimidade e reserva de meu capacete, esses pensamentos se tornam orientações que espero permaneçam em meu interior pelo tempo de minha existência.

E no dia em que a vida não mais me permitir rodar os quilômetros que gostaria, terei na lembrança cada uma dessas placas indicativas de lugares e destinos como marcos de referência dos horizontes que minha curiosidade e o fôlego de minha moto puderam me aportar em algum momento de minha existência.


Ricardo Lugris

 
 
 
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Comentários (16)

23/2/2012 22:46:35
TULIO SILVIANO BRANDÃO
Caro Lugris, como você é um contumaz contador de belos casos!
Muito interessante sua abordagem sobre um tema que realmente pensamos pouco neste significado. Parabéns!
 
23/2/2012 17:54:38
GERALDO BERGAMO FILHO GEBÊ
Ahhh...bem que gostaria de colecionar todas as placas por onde passei......testemunhas paupáveis de bons e inúmeros momentos vividos......e como vc bem disse agradecidos por ter estado alí e que venham muitas outras placas..... parabéns pelo texto. grande abraço Gebê.
 
22/2/2012 18:48:34
CMELLO
Acho que esta sua frase resume o que muitos de nós pensamos a este respeito: "Está claro que o caráter íntimo e pessoal de cada placa, quando chegamos até ela, não pode ser transferido para o domínio público."
E que venham placas e mais placas .......parabéns.......
CMello
 
21/2/2012 21:53:33
CICERO LIMA
Caro Ricardo
Já se passaram dez anos desde a primeira aventura que publicamos em Duas Rodas. Elas estão eternizadas pela fibra do papel e do viajante.
Grande abraço
Cicero
 
21/2/2012 21:23:00
ARY FREITAS
Rapaz, se fosse eu talvez chegasse na china.
Que aventura hein ?
Parabéns pela coragem.
 
21/2/2012 18:22:39
RICARDO PALLETI
Xará, off topic. Muito especial a postagem do Sr. Alfonso, seu pai. Parabéns pelo texto e pela admiração do Sr. Alfonso. Conta pra gente, seu pai também é motociclista? Caso seja peça a ele para nos escrever. Vi que o seu pai não é brasileiros, mas peça ao mesmo para fazer as postagens em espanhol.
Um abraço.
Palleti
 
21/2/2012 17:01:49
ALFONSO LUGRIS
Fantástico hijo!!! Aquí en esta casa los dos viejitos nos recreamos con la lectura de ese bello reportaje. Encantados como siempre con la elegancia de tú bello Portugués. SAUDADE!!!
 
21/2/2012 13:51:06
JU MEDEIROS
Que maravilha o texto Ricardo. Lembro uma vez retornando de Tiradentes -MG para Recife-PE, eu parei perto de uma placa que indicava a direita Rio de Janeiro mil e poucos km e eu tinha que pegar a esquerda.(tenho até a foto). Eu sempre paro para um xixi perto de placas, pois sempre que eu viajava de ônibus, (Itapemirim, Sao Geraldo) ah!... quantas vezes. Eu sempre ia na cadeira de numero 3, era a fila da direita na janela e a primeira da fila. eu escolhia essa por poder ver a estrada, nessa época nao tinha aquela parede na frente que tem nos ônibus hoje. E eu via as placas e sempre me dava vontade de toca-la, e hoje nas viagens que faço de moto é o motivo porque paro sempre perto de uma. Eu imagino a pessoa que as colocou, informação que as vezes na solidão do capacete estamos desesperados para encontrar. E a indecisão de escolher um novo destino, ligar pra casa e avisar a patroa, olha só! não vou chegar quarta, tenho que ir para (falo a cidade) são tantos km. chego no domingo, talvez. Isso porque minha mulher me conhece e sabe que eu não estou pedindo, estou informando.
 
21/2/2012 11:11:03
CARLOS BARBUTO
Muito bom o artigo Ricardo. Belas conclusoes.
Acho que para nos motociclistas de viagem, nada como sua expressao "intimidade e reserva" de nosso capacete. Eh ai que viajamos dentro da propria viagem. Por isso que o importante se torna o percurso, sendo a chegada uma consequencia, a coroacao.
Muito bom
Abraco
 
21/2/2012 10:43:07
OSWALDO PIGOSSI JR
Não perco nenhum de seus textos, sempre traduzem para mim o exato sentimento de estar em qualaquer lugar que seja, só quem viaja de moto sabe o que significa, o destino não importa, o que vale é o trajeto. Talvez por idiotice, sei lá, mas eu tenho o maior prazer de fotografar placas e se possivel encaixar a moto nelas, as recordações parecem mais vivas. Continue sempre a nos brindar com suas experiencias e porque não sua filosofia de vida. Parabens
Grande abraço.
 
21/2/2012 09:12:27
DECIO KERR
Ricardo
Algumas destas placas são mais inesquecíveis ou pela ironia ou pelo humor do seu conteúdo como "Área Urbana" em plena Transamazônica em 1986, placa amarela indicando pista sinuosa no altiplano Andino no ripio do Paso de Jama ou aquela do sitiante que colocou ao lado da sua casa na estradinha de terra que ligava Pirapora do Bom Jesus à Castelo Branco indicando a direção de São Paulo seguido da frase "Não encha o saco".
Pelo menos estas deu para entender.
Parabéns pela matéria.
 
21/2/2012 08:45:45
LUCIANO
Em viagens, e fora delas, já ouvi mais de uma vez: "Tirar foto próximo à Placas de estradas é idiotice". Isto nunca me afetou. As futuras lembranças, inclusive do cansaço e, muitas vezes, dores que tive para chegar ali,serão gratificantes e revigorantes sempre que olhar para aquela foto indicando as próximas paradas, a divisa de dois municípios, Estados ou Países.
O texto veio reforçar e incentivar minha posição. Vou continuar perdendo, para alguns, ou ganhando para mim e outros apreciadores do percurso, alguns minutos da viagem com estas lembranças. Valeu pelo texto.
 
21/2/2012 01:31:34
FERNANDO
Já passei por isso,rsrs
 
21/2/2012 00:50:25
RAUL NOGUEIRA
Ricardo Lugris, me encaixei neste seu texto como se eu quem o tivesse escrito. Parabéns
 
20/2/2012 23:31:05
OTAVIO ARAUJO GUGU
Bela coleção de recordações, amigo Ricardo.
A motocicleta realmente nos transporta física e emocionalmente a mundos não só distantes, mas incríveis. Fico feliz que vc tenha conhecido esses belos e exóticos lugares, sempre com a cordialidade e atenção que lhe é peculiar. Sou como você não me importo com o destino, curto o percurso. Fraterno moto abraço, Gugu
 
20/2/2012 23:06:31
LUIZ FERNANDO TEDESCHI OLIVEIRA
Muito legal!
 

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