As Viagens de Ricardo Lugris

GRECIA EM 2005 - PARTE V

 
Uma só Porta
A chegada a Monemvasia é impressionante. O rochedo onde esta instalada a cidade salta aos olhos a poucos km da cidade. Sem muito problema, encontramos um belo hotel que nos aluga um apartamento com café da manhã por 30 Euros. Uma bagatela. O simpático hotelzinho está junto ao mar. O calor, às 4 horas da tarde é intenso.

Deixo as nossas bagagens rapidamente no apartamento de mobília simples, porém de bom gosto e saio para um bom banho de mar.

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A praia, de cascalhos perfeitamente arredondados pelo trabalho infinito das ondas através dos séculos, não oferecia muito conforto se comparada com as nossas no Brasil, de fina areia branca...
Descalço para entrar na água, meus delicadinhos pés, acostumados com as confortáveis botas de moto, sofreriam uma tortura passageira até que a profundidade do mar permitisse as braçadas libertadoras.
Graça se juntou a mim alguns minutos mais tarde. Curtimos nadar juntos, apesar da temperatura da água ser um pouco mais baixa do que o ideal, sinal de um outono se aproximando.

Curtimos nossa companhia, recolhemos alguns seixos mais significativos, ovalados, arredondados e, mesmo um com a forma de coração que Graça, uma incansável romântica, tomou como amuleto de boa sorte e símbolo desta nossa parceria de mais de 30 anos.

Monemvasia, cujo nome em grego antigo quer dizer “De Uma Só Entrada”, é um lugar extraordinário. A cidade antiga, localizada na encosta de um grande rochedo distante de 300 metros da costa, hoje ligado por uma ponte, tem apenas uma porta de acesso. Antigamente inexpugnável, era refúgio para religiosos e nobres, a salvo de tantas invasões e ameaças da qual foi alvo esta terra milenar.

Deixando nosso hotel localizado na parte continental da cidade, decidimos explorar o lugar sem ter certeza exatamente como se chegava à pequena entrada da cidadezinha medieval.
Não foi difícil. Bastou apenas seguirmos a estrada que terminava junto à porta de pedra que dava acesso ao vilarejo. Os carros, enfileirados por várias centenas de metros atestavam o fato de que veículos não são admitidos.

Previdentemente tínhamos deixado nossas motos no Hotel.
A caminhada, de uns dois km, foi povoada de belas imagens. A pequena estrada contornando a ilha entre mar e rochedo nos oferecia uma vista iluminada pelo sol de poente, dourado e carmim.
Entramos na pequena cidade-fortaleza já ao cair da noite.
A única ruela, repleta de lojas de souvenires e de restaurantes não tinha ainda muito movimento. Muito cedo para jantar na Grécia.

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Após uma breve explorada neste magnífico vilarejo onde vivem apenas 50 pessoas e que recebem milhares de turistas todo o ano, encontramos um bar com o terraço sobre o mar. A lua jogava seu lençol prateado sobre um mar negro que já fora calipso há apenas algumas horas.
Três amigos em torno de uma mesa. Bela paisagem, noite quente e um par de cervejas geladas.

Um pouco de melancolia no ar. Charlie partiria pela manhã rumo ao norte, até Patras. Essa noite, retribuindo sua gentileza e companheirismo, ele seria nosso convidado para jantar.

Já no restaurante, sentados sob um céu perfeitamente estrelado, pedimos nosso jantar aproveitando curiosidades da cozinha grega e um vinho local perfeitamente adequado ao momento e lugar.

O tempo correu velozmente e já era perto de meia-noite quando decidimos voltar ao hotel. Tentamos chamar um táxi, mas já não havia nenhum disponível.

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Pegamos a estrada novamente a pé, contentes de estar ali.
Tiramos fotos de nossa solidão nessa estrada escura em meio a lugar algum.
Brincamos com um ou outro automóvel ao passar, fingindo pedir carona.
Sem que pedíssemos, uma mini-van deteve-se junto a nós e ofereceu para nos levar até nosso hotel.
Preferimos passar em um bar para um último trago antes de nos recolhermos aos nossos apartamentos.
Ao descer do pequeno ônibus, oferecemos pagar dois euros cada um, o que seria uma tarifa razoável de transporte coletivo para os dois km de transporte.
Nosso motorista recusou receber qualquer pagamento e disse que era uma carona. Oferta da casa, disse ele.

Essa atitude simpática nos acompanhou durante toda a viagem pela Grécia
Os gregos, de maneira geral, são orgulhosos e gentis. Os muitos anos de turismo intenso não danificaram a hospitalidade e o caráter generoso deste povo que ofereceu ao mundo os fundamentos da democracia.
Aliás, como curiosidade, temperatura em grego é “termocracia” o governo da temperatura...
Despedimo-nos de Charlie naquela noite em um bar onde o gerente, tendo passado alguns anos nos US, ofereceu-nos para vir tomar o café da manhã, com ovos e bacon, o que fez brilhar os olhos azul-americanos de Charlie.

Levantamos cedo, preparamos as motos e gastamos uma hora com o café da manhã greco-americano de nosso amigo. Dali tomamos a direção sul e Charlie, o norte.
Nosso próximo destino seria Elafonisos, a apenas dois km da costa do Peloponeso, esta ilha clama para si a propriedade da praia mais linda de todo o Mediterrâneo. Nem mais, nem menos.

A travessia, feita em um ferry apinhado de carros e caminhões, se fez com o sol a pino
O calor nesse dia era digno do Deus Helios, estávamos na terra dele, em todo caso.
O pequeno vilarejo de pescadores de Helafonisos tem uma arquitetura um tanto quanto exótica, pois uma grande parte dos moradores desta ilha emigrou para a Austrália nos anos 50 e, ao retornar, trouxe com eles um pouco daquele país continente.
Fomos visitar a famosa praia. Estacionamos a moto e caminhamos, de botas sobre as escaldantes areias da praia (isso, areia. Esta praia era de AREIA). Coisa rara na Grécia.

A praia, longa de uns 500 metros, era ligada a uma pequena península quando em maré baixa e uma ilha, quando a maré estava alta.

Praia interessante, bonita talvez. Nada que não pudesse ser superado facilmente por uma praia do Nordeste, de Santa Catarina ou do Litoral Norte do Estado de SP.


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No Peloponeso, Neapoli e a Ilha de Kythira.
Voltamos ao ferry e completamos nosso percurso até o sul do segundo dedo do Peloponeso, Neapoli.
Cidade de uns 40.000 habitantes, com suas indefectíveis casas caiadas de branco, nossa intenção era de embarcar em um ferry até a Ilha de Kythira, a 3 horas de navio, onde ficaríamos os próximos dois dias.
Nosso ferry nos deixou no porto de Diakofti onde desembarcamos às 3 horas da tarde. Tentamos um restaurante no local, sem sucesso. A comida no único restaurante já tinha acabado.
Coisas de viagem. Tomamos a estrada rumo ao sul da Ilha, a pequena cidadezinha de Kythira a apenas 35 km dali.

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Após uma estupenda subida desde o porto por uma estrada escarpada que nos levou rapidamente a uma altitude de quase mil metros acima do nível do mar, fomos percorrendo em cada uma de suas curvas aquelas aldeias de sonho e de postais deste país.
A cidadezinha de Kythira, com sua praça característica, seus cafés característicos e seus velhos sentados caracteristicamente na calçada em frente à taberna, discutindo assuntos intermináveis ou, simplesmente em silêncio, como só os amigos de toda uma vida sabem fazer.
Graça e eu queríamos estar junto ao mar, para aproveitar dois dias de tranqüilidade e praia.
Kythira, não tínhamos percebido pelo mapa, ficava a uns 400 metros acima do mar, em um promontório com uma vista extraordinária , porém, para ir à praia, teríamos que descer 2 km de moto a cada vez que quiséssemos molhar os pés.

Seguimos até o pequeno porto de Kapsali. Ali, encontramos um quarto em uma perfeita “pension” grega, com suas portas de azul imperial, suas paredes de 1m de espessura caiadas de branco, sua velha proprietária vestida de preto e sentada junto à porta de entrada e, sem dúvida, seus terraços com vista para o mar e as figueiras, carregadas de frutos que, literalmente caíam de maduros.

Enquanto eu descarregava a moto, Graça pediu permissão à velha senhora para colher alguns figos. Obviamente a velha não entendeu nada do que aquela turista vestida de astronauta falando em francês queria dizer. Apenas fez o gesto peculiar de cabeça para os lados. Esse gesto, na Grécia, quer dizer “sim”. O gesto de movimentar o queixo para cima, uma só vez, quer dizer “não”.
Com tempo suficiente para aprender esse pequeno detalhe, Graça encheu suas mãos de figos maduros e doces. Sua fruta favorita, ela parecia uma criança em loja de chocolates.

Aproveitamos o fato de que ficaríamos duas noites naquele lindo lugar para lavar algo de nossa roupa.
Saímos para passear e comer algo. Já não conseguimos almoço. Sem termos nos dado conta, continuávamos com o horário da Itália em nossos relógios. A Grécia tem uma hora a mais... Curiosamente, já estávamos há uma semana no país e estivemos sempre atrasados de 1 hora...
Nosso pequeno quarto era dotado de uma pia, um toalete e um chuveiro instalado de tal maneira que, para irritação da Graça, molhava tudo no banheiro, incluindo o papel higiênico, quando alguém tomava uma ducha.

Bem, por 30 euros ao dia, figos e lavanderia gratuita, mais a vista maravilhosa sobre a baía de Kapsali com um por do sol de tirar o fôlego, até que o papel higiênico molhado não era lá um grande problema, certo?

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Acordamos tarde.

Uma semana de estradas gregas começava a fazer efeito em nossos corpos. Montamos uma mochila com Ipod, postais para preencher, guia turístico, aparelho fotográfico, livro, bonés, toalhas, protetor solar, lap-top (estávamos em setembro e o mundo continua girando) para ver meus mails, ufa! Quem disse que é simples ir à praia?
Instalamo-nos em cadeiras normalmente alugadas a turistas durante a temporada. Em setembro, éramos, respectivamente, a terceira e a quarta pessoa a chegar à praia naquela linda manhã de sol.
Dei um pulo a um internet-café de propriedade de um adorável casal de franceses (Deve ser isso, os adoráveis e gentis saem da França...) e consegui baixar minhas mensagens. Isso me manteve ocupado na praia, entre mails e telefonemas. Protestos da Graça.
Deixamos os seixos da praia para um almoço com a indefectível salada-grega, polvo, peixe frito e um delicioso vinho branco geladinho.

Na parte da tarde decidimos conhecer nossa pequena aldeia e fizemos uma suave caminhada de mãos dadas como se tivéssemos nos conhecido no dia anterior.
Algumas pequenas compras para nossas filhas completaram o final de tarde.
Sentamo-nos no terraço de nossa pensão para uma leitura tranqüila para mim e um manjar de muitos figos para a Graça.

Voltamos ao café-creperia de nossos novos amigos Franco-Gregos. Soubemos que eles tinham deixado Lille há nove anos para se instalar nesta pequena ilha e viver uma vida muito menos estressada.
Durante a temporada, no verão, trabalham perto de 18 horas por dia. Em compensação, fora de temporada, saem por dois meses de férias ou trabalham apenas três dias por semana. Nada mal, zero stress. Algum café à venda por aqui?

Com poucos clientes naquela noite, nossos amigos franceses se deram ao prazer de conversar em sua língua natal e a trocar informações sobre a vida na França e no Brasil quando comparadas à vida que eles levavam ali, naquele pequeno cantinho de paraíso.

No Peloponeso – Gythio
No dia seguinte, curtimos novamente um pouco de praia e pegamos a estradinha de aldeias, figos e flores de volta ao porto onde o ferry nos retornaria a Neapoli e ao Peloponeso.
Em Neapoli, com o sol a nos acompanhar deixando a sombra da moto para ser seguida, subimos os 120 km que nos separavam de nosso destino naquele dia, Gythio.

A estrada, nos seus primeiros 40 km teve novamente o charme do mar-e-montanha que seria a grande característica desta viagem. Na parte final da viagem, fomos costeando o mar em uma seqüência de praias sem atrativos, mas que tinham, a cada uma delas, seu indefectível hotel de turistas, a estas horas na temporada já fechados.

O porto de Gythio, capital da região do Mani, da qual falaremos (com entusiasmo) mais tarde, foi talvez o único lugar onde estivemos na Grécia e que tivemos a sensação de ser explorados.
Começando pelo hotel. Encontramos um belo hotel em uma construção dos anos 20 do século passado, perfeitamente reformado e com o conforto que achávamos ser razoável. Sem garagem para a moto. De qualquer forma, o porteiro informou que haveria alguém junto à portaria durante toda a noite e que jamais tinha havido qualquer problema ali.
Pediram-nos 100 euros pela noite, com o café da manhã, o que é de praxe na Grécia. Achei caro, mas como já estávamos viajando há mais de 10 horas naquele dia, decidimos negociar e tentar ficar ali. Conseguimos baixar para 80. Razoável.

Saímos para jantar. Passamos por vários antiquários, paixão comum da Graça e minha, entramos para olhar já resulta quase impossível comprar algo em viagem de moto.
Na primeira loja, o proprietário, instalado em uma cadeira ao fundo do estabelecimento nem se deu ao trabalho de levantar o queixo da palma da mão que o apoiava. Cumprimentamos: Yesas! O olá dos gregos. Ele: Silencio.

Nas lojas seguintes o estilo foi o mesmo.
Para jantar, eu pedi camarões ao molho e estes vieram realmente horríveis. Tive receio de consumi-los.
A conta do jantar foi exorbitante e, o serviço, normalmente eficiente e atencioso, foi totalmente prejudicado pela exibição de um jogo da equipe de futebol de Atenas no campeonato europeu. Alguém já viu garçom servindo de costas?
Aliás, falando em restaurante, garçom e outros, fico pensando de onde saiu o “arroz à grega?” A verdade é que grego não come arroz...
Por brincadeira, pedi “arroz à grega várias vezes.
O garçom ficou ali, me olhando com aquela cara de quem diz: esses turistas têm cada uma...
Após nosso fracassado jantar, voltamos tranquilamente ao nosso pequeno, caro, porém confortável hotel.
Nossa GSA continuava ali, na porta do hotel, e tinha ganhado companhia para a noite: Uma mobilette, enterrada em sua própria ferrugem, se dava os ares de grande dama e ali fora colocada para seduzir a feia, porém saudável alemã. Nunca se sabe...

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Na manhã seguinte, com uma vista maravilhosa sobre o pequeno porto com direito ao sol que se elevava diante de nós e um belo veleiro de seis mastros do Clube Med que tentava atracar, aprontamos nossas coisas para um dia que seria, individualmente, o mais lindo de toda nossa viagem por terras de Homero.

O Peloponeso – Mani
Nesse dia, percorreríamos a terceira das quatro penínsulas do Peloponeso e a única que tem um nome: Mani.
Região jamais dominada, nesta terra de muitos donos ao longo de sua história, o Mani é famoso por suas aldeias repletas de casas-torre fortificadas onde seus moradores se protegiam de seus vizinhos em centenárias rixas entre famílias na mesma península.
Saindo de Gythio, tomamos o rumo oeste onde atravessaríamos em diagonal a península em apenas 22 agradáveis km onde belos vales perfeitamente cultivados se alternavam com as encostas de montanhas com suas oliveiras históricas onde dezenas de gerações se sucedem na preparação de uma das substancias mais nobres e puras já desenvolvidas pelo homem: o azeite de oliva.
Chegaríamos a Aerópolis, de onde iniciaria nossa volta à Península do Mani. Fizemos uma pequena pausa para admirar mais uma bela cidadezinha perdida nos confins de um pequeno país milenar onde o tempo, tão relativo por aqui, fazia acreditar que esta gente mantinha seus hábitos por gerações a fio, sem se preocupar com o que acontecia em outros pontos do mundo. Seu tempo era o das colheitas e seus interesses, a política local e o futebol.

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Colocamos alguns cartões postais em Aerópolis e seguimos para a Caverna de Diros, maravilha geológica com vários km de profundidade e centenas de galerias que, percorridas em um pequeno bote conduzido por um guia, tomariam duas horas de nossa completa atenção e fascínio.

Graça, claustrofóbica, sócia emérita da associação internacional dos claustrofóbicos militantes, quase me jogou fora do botinho quando percebeu onde eu a estava levando...

Depois de uma pequena sessão de convencimento, ela se decidiu a colocar o colete salva-vidas, e subiu no instável botinho que seria conduzido habilmente por nosso guia.

Em poucos minutos fomos deslizando por galerias tão amplas como uma estação de metro. Cores se sucediam entre estalactites e estalagmites (qual a que cresce para baixo e qual a que cresce para cima?) e a cada galeria, como se tivesse sido pintada por mãos humanas, (talvez o tenham sido... com os gregos nunca se sabe...) passávamos do rosa ao verde, ao azul e ao ocre. Uma maravilha. Frio ali dentro. Não estávamos com nossos casacos. Ficaram na entrada, com o porteiro.
O suave passeio no barquinho, em um silencio de templo, foi seguido de uma instrutiva caminhada ainda no interior da imensa caverna que, segundo nosso guia, só havia sido explorada em uma pequena parte.
Voltamos à nossa moto e seguimos rumo ao sul no Mani deixando para trás cidades de aspecto moderno, passando a cruzar aldeias com as casas de construção característica que fizeram a história e a reputação desta região.

Imaginem uma torre, retangular, construída em pedra com um terraço no topo. Janelas pequenas e uma só porta feita em madeira de vários centímetros de espessura.
Assim são as casas-fortaleza do Mani. Assim se protegiam seus moradores de seus próprios vizinhos, frequentemente desafetos entre si. O ódio como cultura e tradição. O sangue como marca de coragem.
Graças à ferocidade e dureza de seus habitantes, somada à extrema aridez de suas paisagens, esparsamente cobertas de vegetação e largamente cobertas de rochedos e pedras, esta região foi a única a nunca ser ocupada nesta grande península que é a terra Helênica. .
O maravilhoso mar Egeu desfilava sua beleza à nossa direita, de aldeia em aldeia chegamos à mais bonita delas, Vathia.

Este pequeno burgo, por muitos anos abandonado em razão da falta de recursos nesta península áspera e dura como a lua, foi retomado nos últimos anos por investidores e transformado em um recanto de interessantes pousadas, resultado da reconstrução destas casas-fortaleza.
A localização de Vathia, sobre uma colina com vista para o mar, presta-se para um fim de semana de reflexão, passeios e repouso, em um cenário verdadeiramente extraordinário.
Infelizmente, como costuma acontecer em uma viagem de moto, fizemos uma visita de uns trinta minutos, onde percorremos as estreitas e serpenteantes ruelas desta pitoresca aldeia, dissemos “bom dia” a um par de moradores locais, fizemos algumas fotos e retomamos nossa sinuosa estrada.
Alguns km mais adiante, avistamos um pequeno porto de pesca com sua baía de águas azul-turquesa.

Descemos até ele para um pequeno repouso, pois o calor começava a bater duramente.
Estacionamos a moto na indefectível pracinha do lugar. Junto a ela, um Café protegido do sol por uma bela parreira, oferecia várias mesinhas ainda livres. Alguns “locais” tomavam seu “frappé” de café gelado e eu pedi o mesmo.

Bebida largamente consumida na Grécia, sobretudo no verão, o café gelado é realmente agradável já que mata a sede e estimula em dias de grande calor, evitando aquela preguiça típica dos países de temperaturas altas.
Sem dúvida, é por isso que os gregos ficam ali, horas e horas, tomando seu café gelado, sem tirar a bunda da cadeira...
Em uma mesa ao lado, um simpático casal ficou impressionado com nossa moto. Verificou a placa e perguntou se éramos franceses.
Muito sério, respondi: Não senhor, somos normais.
Os ingleses, não muito fãs dos franceses, adoraram a piada e depois de saber um pouco mais de nossas origens, participaram conosco de uma meia-hora de agradável conversa onde nos contaram um pouco sobre aquele lugar e sobre a casa que tinham construído aqui, nos confins da Grécia continental, para escapar do frio e da chuva das Ilhas Britânicas.
Por uma estrada de sonho para qualquer motociclista, pendurados a uns 300 m em uma encosta sobre o mar, nossa GSA desenvolvia suas rotações a 60, 70 km/h com uma temperatura agradável de 27 graus e um céu infinitamente azul, o melhor lugar do mundo era ali mesmo.
A estradinha nos levava rumo ao norte e, nela, estaríamos completando um grande anel de uns 75 km em torno da península do Mani, retornando pelo outro lado a Areópolis.

O Melhor peixe da Grécia
Em Atenas, Haris e Mayra, nossos amigos gregos recomendaram que fizéssemos uma parada em um dos melhores restaurantes de peixe da Grécia, segundo eles.
Já eram duas horas da tarde e tínhamos fome. Limenas, o vilarejo onde se encontrava o Restaurante Takis não foi muito difícil de localizar e, uma vez no vilarejo, o restaurante estava bem à vista.
Estacionamos a moto à sombra de uma figueira onde Graça aproveitou para colher dois ou três figos maduros e descemos uma longa escadaria que levava ao simpático restaurante localizado à beira-mar.
Simpáticos e atenciosos, a família de proprietários do Tarkis nos acolheu com muito entusiasmo quando dissemos que vínhamos com uma recomendação de almoçar no “melhor restaurante” da Grécia, segundo se comenta em Atenas.
Estava garantido o melhor serviço do mundo, uma lagosta maravilhosa, vinho branco da região, em um ambiente e vista emocionantes.
Passamos duas horas encantadoras na companhia de milhares de peixes que vinham junto a nosso terraço esperando um pedaço de pão que jogávamos com uma certa culpa, sob o olhar complacente do garçom.
Casados há muitos anos, Graça e eu temos uma grande parceria um grande prazer em estar juntos. Nunca ficamos sem assunto e temos realmente pena de casais que encontramos pelos restaurantes da vida aonde vem jantar ou almoçar e permanecem durante toda a refeição sem se falar. Já não há assunto entre eles. Triste, muito triste.
De Limenas, felizes e satisfeitos com o maravilhoso almoço, depois de recebermos despedidas carinhosas e efusivas de todo o pessoal do restaurante, retomamos nossa estrada no rumo norte, em direção a Kalamata onde pretendíamos pernoitar, a uns 80 km dali.
A estrada separou-se momentaneamente do mar, causando-nos uma certa estranheza pois estávamos nos acostumando a ter aquela vista azul-turquesa de uma cor intensa e tranqüilizante.

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Kalamata e Mistras, a jóia Bizantina
Até então, apesar de estreitas e repletas de curvas bastante fechadas, as estradas gregas estavam razoavelmente bem conservadas. As constantes curvas exigiam bastante do piloto.
Levar uma moto de 300 kg, com bagagem completa para 15 dias e o peso de duas pessoas adultas sobre ela, é tarefa que requer uma certa habilidade e um mínimo de preparo físico.

Quando a estrada é “travada” o esforço aumenta muito. Em médias de apenas 300, 350 km ao dia, eu me sentia muito mais cansado ao final da jornada do que os 800 km de média que fiz na viagem à Patagônia.

Rapidamente chegamos aos arredores de Kalamata. Logo à entrada da cidade, junto ao mar (olha ele de novo aí...), vimos um “outdoor” de um Hotel cinco estrelas, um “resort”.
Esses lugares costumam ser bastante caros, de qualquer forma, decidimos dar uma olhada.
O lugar era realmente bonito. Um belo hotel sobre uma colina, a apenas 50 metros do mar, com uma linda piscina na parte mais alta do complexo turístico.

Perguntar não ofende... Com um pouco de receio, quis saber o preço.
Topei com uma simpática recepcionista, curiosa, querendo saber como era essa história de vir de moto desde a França. Depois de lhe contar um pouco de nossas andanças, confessei que estava interessado em ficar no hotel por uma noite, com minha mulher, mas estava preocupado com o preço que ele nos poderia custar.

Disse-me ela que o preço era de 80 euros por apartamento, com café da manhã para o casal.
Antes que eu aceitasse, o que pretendia fazer, pois o lugar era realmente lindo e o calor de fim de tarde convidava urgentemente a um banho de piscina, ela foi até o escritório atrás da recepção e falou com o gerente de turno. Voltou com uma boa notícia.
O gerente aceitava nos fazer 50% de desconto já que não era todo o dia que apareciam turistas de moto. Além do mais, disse ela, estávamos em baixa temporada, o hotel estava quase vazio e eles achavam que perderiam mais em ter o apartamento sem ocupação.
Celebrando o pragmatismo e hospitalidade grega, agradeci calorosamente e ela acompanhou-nos até o respectivo apartamento, sem, contudo deixar de fazer perguntas sobre nós, sobre a moto e sobre nossa percepção da Grécia que, sem dúvida, naquele momento era a melhor possível.
Terminada nossa rotina diária de descarregar a moto, partimos sem demora para um delicioso banho de piscina que, com 28, 30 graus às 18 hs e com um sol horizontal de tonalidade laranja-avermelhado, revelou-se de um prazer inimaginável.

O espetáculo de um por-do-sol é praticamente diário e gratuito

Aprecia quem quer e, sobretudo, quem é inteligente.
Em torno da piscina, alguns casais de turistas estrangeiros, como nós, aproveitavam a placidez do lugar para tirar uma soneca ou ler um bom livro.
Após a piscina, ainda com nesgas de raios de sol, combinamos de dar um pulinho até a beira do mar para ver como seria a pequena praia em frente ao hotel.
Atravessamos a estrada e, a uns 60 metros, encontramos o corrimão de uma escada que descia a falésia de uns 20 metros até a pequena praia de cascalho.
Nao reparamos na “scooter” estacionada junto à escada, entretanto.
Ao descermos, com surpresa e uma boa dose de bom humor, encontramos um casalzinho instalado sob o vão da escada em plena “trepadinha”.

Ambos não deviam ter mais do que 18 anos. Antes que percebessem nossa presença, retrocedemos em nossos passos e subimos novamente a escada para não atrapalhar o romance...

Na manha seguinte, satisfeitos e descansados cruzamos a cidade de Kalamata sem nos deter e tomamos a direção do leste por uma pequena estrada que nos faria cruzar uma região montanhosa, ao lado do Monte Taygetos, de 2400 metros de altitude.

Nosso próximo destino seriam as ruinas de Mistras, jóia do Império Bizantino.
Esta fantástica cidade-estado, teve seu apogeu no seculo XIV.
Seus últimos habitantes mudaram-se para a nova cidade de Sparta, a poucos km dali em 1947.
Hoje, como para guardar tão belo patrimonio histórico, resta apenas um convento com 9 freiras católicas ortodoxas.

Nossa visita iniciou-se pela porta norte da cidade que nos conduziria por calçadas milenares entre ruínas de igrejas cristãs e casas onde se pode distinguir ainda os mais diferentes ambientes.
Mistras esta situada no topo de uma colina e sua localização fez dela uma cidadela inexpugnável até a chegada dos Turcos e o fim de Constantinopla.

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Apesar do calor que aumentava a cada minuto, fomos descendo descuidadamente degraus e mais degraus, completamente absorvidos pelas maravilhosas ruínas com belos detalhes em suas colunas e janelas arredondadas, típicas da cultura Bizantina.
Chegando à parte mais baixa da cidade é que nos demos conta de que teríamos que retornar sobre nossos passos até a porta por onde tínhamos entrado e deixado nossa moto.
Somente ali percebemos que todos os turistas viajando em ônibus de excursão eram deixados na parte alta da cidade e recolhidos do outro lado, na parte mais baixa.

Como nossa moto não mudaria de portão para nos esperar, tivemos que nos resignar a subir todos os degraus de volta com um calor de mais de 30 graus.
Cheguei no bagaço.

Graça, em função de suas aulas de step, chegou muito melhor do que eu.
Assim que alcançamos nossa moto, começou a chover uma chuva fininha à qual demos boas vindas pois era realmente refrescante depois de tamanho exercício.
Com uma curta parada para tomar uma foto do panorama completo, retomamos nosso caminho em direção a Sparta, aquela que foi a grande rival de Athenas.
Hoje em dia, por ter sido a cidade moderna de Sparta construída sobre as ruínas de sua predecessora na antiguidade, quase não resta nada para ver ou visitar em matéria de ruínas.

O Museu do Azeite de Oliva em Sparta
Chegamos ao centro da cidade abaixo d’água. Era uma bela tempestade de verão. Vimos uma placa interessante indicando o “Museu do Azeite de Oliva”. Como sou um apreciador dessa iguaria e gosto de colecionar garrafas de diferentes azeites pois eles em geral refletem um perfume e personalidade relacionados com cada região que os produz.
O Museu nos conta a história desta substancia mágica que ao longo da civilização foi utilizada como hidratante, ungüento, cicatrizante, combustível para lânpadas, medicamento, digestivo, etc.
Quando deixamos esse pequeno museu a chuva já tinha diminuído mas a temperatura caíra para 15 graus.

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Em uma bela estrada de montanha, com uma chuvinha fina mas devidamente protegidos por nossas roupas impermeáveis, fomos avançando entre pinheiros e figueiras, ambos nos brindando com um maravilhoso perfume ao longo do caminho.

Nosso próximo destino seria Meteora, um extraordinário lugar onde 24 mosteiros Ortodoxos foram construídos sobre rochedos absolutamente inacessíveis exceto por cabos e escadas de cordas.
Meteora seria o fechamento de ouro de uma belíssima viagem. Dali, seguiríamos para Igoumenitsa no oeste da Grécia e pegaríamos nosso barco de volta à Itália e, dali, por auto-estradas, retornaríamos à França.

Dos 24 mosteiros originais, apenas 6 sobreviveram à imensa destruição causada pela Segunda Guerra Mundial.

Durante o conflito, membros da Resistência Grega utilizaram alguns desses mosteiros para esconder-se dos nazistas. Isso ocasionou o bombardeio e conseqüente destruição de maravilhosos monumentos de mais de mil anos. A barbárie humana consegue destruir o que a sensibilidade humana preservou.

Com essa nota mescla de admiração e tristeza, terminamos nossa linda viagem de onde levaremos a recordação de muita história, mar, sol e um céu infinitamente azul passando diante de nossa motocicleta.


Ricardo Lugris

Recordação da viagem a Grécia em 2005

 
 
 
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Comentários (17)

2/2/2017 23:56:39
7EHAXUDRFC6W
Walking in the precsnee of giants here. Cool thinking all around!
 
28/6/2016 15:23:00
JOSCJJBW7KH
I went to tons of links before this, what was I thkining?
 
8/11/2011 18:36:06
GRAÇA BALEN LUGRIS
Viagem maravilhosa por um pais encantador e, em companhia de minha alma gemea.... O que pedir mais ????
 
8/11/2011 13:57:58
ALFONSO LUGRIS
Hola hijo: Como siempre contigo visitamos esos bellos rincones de este único e inigualable planeta que tenemos la suerte de habitar y siempre tenemos pena de un dia tener que dejar..
TENEMOS QUE CUIDARLO MUCHO Y CON CARIÑO!!!!
 
8/11/2011 11:52:28
GERALDO BERGAMO FILHO GEBÊ
Ricardo e Graça que viagem fantástica, um texto agradabilissimo discorrendo sobre uma região singular de belíssimas paisagens e cortezia de seu povo, lembro-me bem de momentos similares que pude sentir essa mesma magia e contemplar várias ilhas e prinicipalmente Santorini onde permaneci e Athenas com seus testemunhos históricos, além de Meteora. Aproveito para esclarecer que "stalactite" é uma ornamentação de cavernas que pendem do teto e "stalagmite" que sobem do piso, fruto da deposição de calcita (carbonato de calcio) carregada pela água (pingo), que percola do teto e por centenas de anos, fazendo "crescer" o espeleotema. Maravilhoso poder compartilhar com essa aventura. De moto entao, nem se fale.grande abraço Gebê
 
8/11/2011 10:47:47
EUGENIO PACELLI
Muito legal..... sem palavras
 
7/11/2011 19:54:55
PAULO AZEVEDO NETO
Ricardo Lugris, ficamos muito grato em nos proporcionar relatos como este, que além de nos dar uma melhor dimensão sobre a Grecia, nos desperta o interesse em fazer tal viagem de motocicleta.
Parabéns.
Azevedo Neto
 
7/11/2011 19:00:15
EDER FERREIRA
Parabens Lugris, otimo texto e belas fotos
 
7/11/2011 13:55:56
ALINE DA SILVA FERREIRA
Uau!!!! Que delícia de viagem... Grécia sempre foi um dos meus sonhos de viagem, e depois desse relato, fiquei com mais vontade ainda de conhecer este lugar. Muito legal o jeito que vocês vivenciam os lugares por onde passam e a cumplicidade de vocês salta aos olhos. Parabens pela aventura! (PS: senti falta da Graça nas fotos!)
 
7/11/2011 11:37:47
CICERO PAES
Ricardo:

Sempre é bom ler seus relatos, com informações importantes e o senso espirituoso.

Valeu !
 
7/11/2011 11:25:30
ACACIO LUIZ DE SOUZA
parabens , belas ,se na proxima viagem vc tiver muito cansado pode me levar q eu fotografo pra vc ,abração !!!
 
7/11/2011 11:15:55
FERNANDO ZANFORLIN
Olá, Ricardo, fico muito contente e ler o seu relato, principalmente pelo fato que vc. fez essa viagem com sua mulher. Sei o quão é legal ter na garupa nossa esposa. Parabéns ao casal.
 
7/11/2011 11:13:26
RUITER FRANCO
Creio que o Irmãos Claudio Ribeiro e o Gugu, ja registraram tudo e peço licença para repetir suas palavras.
 
7/11/2011 10:22:56
DONATO MONTEIRO
M-A-R-A-V-I-L-O-S-O, isso mesmo, tudo em maiúsculo e bem pausado, uma primazia de textos, muita sensibilidade nas fotos e detalhes, sem duvida a vontade (imediata) é de motoviajar pela Grécia, um banho de cultura, aromas e imagens.
Parabéns Ricardo e Graça pela deliciosa viagem, parabéns Rotaway por novamente compartilhar conosco desta apaixonante arte chamada motociclismo.
Grande abraço.
Donato Monteiro.
 
7/11/2011 10:14:12
OTAVIO ARAUJO GUGU
Ricardo,
Mais uma vez você me surpreende, não apenas pela bela viagem como também pelas fotos e instigante descrição.
É de dar água na boca... Parabéns, fiquei sem palavras, adorei.
Fraterno moto abraço, Gugu
 
7/11/2011 07:28:52
WALTER MOLINA JR
Ricardo parabéns pela viagem. Em 2001, eu, minha esposa e o Eduardo aqui do Rotaway, também rodamos por essa região. Obrigado em nos fazer relembrar esta linda terra.
Um grande abraço.
Molina
 
7/11/2011 06:38:37
CLAUDIO RIBEIRO
Sensacional!
 

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