Aventura de Motocicleta em 1960

AQUI VÃO OS ÚLTIMOS TRECHOS DA HISTÓRIA QUE TEM UM FINAL FELIZ.

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Lembrando da arma que até àquela hora não a tínhamos utilizado, tirei-a da maleta, verifiquei estar o pente carregado, destravei-a e procurei onde atirar para experimentá-la. Vi uma boa árvore próxima de nós, engatilhei a pistola, mirei e puxei o gatilho. Surpresa!!! A espoleta pipocou. Tirei aquela bala e vendo que a espoleta estava marcada pela agulha, tentei uma outra... e nada! Mais outra... também nada! O Fernando pede para atirar, aperta o gatilho... e nada! Achei que a munição estava vencida. Isto por que: Quem me emprestara a arma com a munição fora um ex-combatente da 2ª. Guerra mundial e possivelmente aquela munição deveria ter mais de 15 anos.

Nesse momento, pensei: E se tivéssemos de usá-la contra algum bandido naquela ocasião em que estávamos tarde da noite naquele trecho perigoso de Nova Conquista, o que teria acontecido? Certamente por derradeiro instinto de defesa, só serviria para arremessá-la contra a cabeça do bandido como se fosse uma pedra.

Após esse fato, guardei a arma na maleta e continuamos a jornada. Não demorou muito e a corrente saiu novamente, mas graças à nossa experiência anterior e nenhuma cobra ou outro bicho aparecer, perdemos apenas metade do tempo. Na oportunidade aproveitamos e alongamos ao máximo o esticador da corrente pelo fato de já estarmos preocupados para o caso dela sair, entrar pelos raios da roda traseira e travar a moto. Se isso acontecer, será um tombo feio. E bota feio nisso.

Não faltava mais nada e a estrada agora está terrível devido a muitos buracos e costelas, mas finalmente após tantos trancos e barrancos chegamos em Muriaé às 17:30h.

Como o tempo estava ameaçando chuva falei para o Fernando que seria melhor subirmos a serra, que estava logo à frente, antes que a chuva caísse, porque depois ficaria muito difícil devido ao problema da lama e da corrente derrapando. Num esforço maior em subidas, se desse qualquer arrancada ela sem dúvida derraparia na coroa. E quanto mais derrapar, mais desgastará os dentes, chegando no ponto de não haver mais tração. E com a chuva, esse problema da corrente iria se agravar.

Embora também quisesse chegar o mais rápido possível ao Rio, ele não concordou, ponderando que estávamos cansados, ameaçava chover e já ia escurecer. O risco seria muito grande.

Não aceitando sua sugestão e dizendo-lhe que o melhor seria irmos, acelerei e partimos em frente.

Quando ainda estávamos no início da subida começa a chuva e mais acima a noite se inicia, ficando então a estrada escura e lamacenta. Sem farol, com lama na estrada, mais a chuva para atrapalhar a visão e não conhecendo o caminho, a coisa ia ficando cada vez mais perigosa. Para piorar, quando precisava dar uma acelerada devido a buracos ou uma inclinação maior da subida, a corrente girava em falso e ao invés de subirmos íamos para trás. Tinha ocasião em que o Fernando saltava e acompanhava ao lado, a fim de aliviar peso mas não adiantava. Os motoristas dos caminhões que também tinham as suas dificuldades para poder subir, não imaginavam que à frente deles pudessem estar dois malucos à noite, com chuva, sem qualquer iluminação, numa íngreme subida lamacenta, e numa moto cuja corrente deslizava na coroa fazendo-os às vezes andar de marcha ré.

Resultado: Não nos vendo quando passavam por nós, sem saber fechavam-nos fazendo com que saíssemos da estrada.

E agora, como vamos conseguir alcançar o topo com todos esses empecilhos e o risco de vida a que estávamos expostos? E o Fernando coitado, que passava por todo esse sofrimento devido à minha teimosia na ânsia de ultrapassar este derradeiro obstáculo, sofria sem reclamar.

Então, após muita insistência, mas acabando por reconhecer o perigo da situação em que estávamos e a impossibilidade por continuarmos, resolvi voltar e aguardar para atravessarmos a serra no dia seguinte, exatamente como o Fernando havia sugerido lá embaixo.

Voltamos e arranjamos acomodação num hotelzinho na beira da estrada.


Dia 25 de março. Muriaé-MG / 41º Dia.

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Acordamos relativamente cedo e procuramos ver se era possível esticar mais a corrente, a fim de evitar que continue derrapando nas arrancadas e nas subidas. Mas não era possível. O esticador já estava no máximo.

Sendo assim, vamos embora e seja o que Deus quiser.

O dia estava nublado, mas não chovia o que já ajudava bastante. O chão continuava aquele lamaçal de sempre, cheio de armadilhas.

Enquanto estávamos na parte plana da estrada, ia tudo muito bem. Acelerava gradativamente na seqüência das marchas e a corrente ia atendendo satisfatoriamente, proporcionando tração.

Quando começou a subida e aproveitávamos o embalo da velocidade empreendida, ainda continuava tudo bem. Não tínhamos andado muito na subida e então a corrente começa a deslizar devido às curvas mais fechadas ou nos aclives mais acentuados.

Tentei uma, duas, três vezes, inclusive com o Fernando empurrando-a, mas não era realmente possível. Resolvi parar por ali, porque senão a coroa ficaria lisa e aí não teria tração nem na parte plana da estrada. Vendo, então, bem próximo de nós um descampado ao lado da estrada, levei a moto para lá, evitando prejudicar motoristas que estivessem subindo.

O que vamos fazer? Hoje, novamente próximos ao topo, que após ultrapassá-lo poderemos considerar terminada a viagem, estamos impossibilitados de prosseguir. Isso não é admissível!

Vamos pensar: Empurrá-la morro acima seria impossível, não só pela distância, mas também devido ao trânsito e à lama que tornava difícil o domínio de qualquer veículo, pois independente da vontade ou habilidade dos motoristas, eles poderiam nos atingir.

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Não demorou muito e o Fernando teve uma idéia: Vamos parar um caminhão e pedir que nos reboque até o pico. Lá em cima ele nos solta e continuamos sozinhos. Taí, é isso mesmo, concordei.

Ficamos acenando na estrada um pouco antes de onde estava a moto e logo parou um FNM (Fenemê). Rapidamente falei da situação, ele se prontificou ajudar-nos, então pedimos ao motorista que entrasse no descampado com o caminhão, o que fez com habilidade.

Explicando para ele nossa idéia, olhou-nos firme e gravemente falou: Já vi que vocês são dois malucos. Como se não bastasse essa loucura que estão fazendo, ainda querem me complicar? Vamos lá, disse ele. Eu não vou rebocar vocês, mas posso levá-los e a motocicleta também. Vocês vão na boléia comigo e quanto à motocicleta, vamos ver como poderemos prendê-la nas cordas que firmam a lona que cobre a carga da carroceria.

Quando ele falou isso lembrei da cordinha de oito metros de extensão que havia levado e estava guardada na pasta das ferramentas. Fui lá, apanhei-a e com ela amarramos a motocicleta atrás do caminhão, nas cordas que prendiam a lona de cobertura. Dessa forma ela ficou mais segura junto à carroceria. Mas antes havíamos tirado as pastas, as maletas e o paralama dianteiro, colocando tudo dentro da boléia onde ainda havia muito espaço. Ficou, perfeito! O motorista, vendo que não haveria problema, falou para entrarmos e em seguida partimos.

Com o FNM (de origem italiana, no Brasil eram fabricados em Xerém-RJ, na Fábrica Nacional do Motores-FNM) não tinha “meu pé me dói”. Na peculiar vagarosidade que era a forte característica dessa marca, com firmeza e disposição ia subindo e descendo serra enquanto nós, na boléia, íamos tranqüilamente conversando.

Ultrapassados todos os obstáculos da subida e agora já embaixo, paramos finalmente num posto de gasolina em Leopoldina-MG, onde foi possível saltar e desamarrar a moto do caminhão. Beleza!

Aproveitando, fizemos uma boa limpeza nela, recolocamos no lugar o paralama dianteiro e ainda no posto de gasolia fomos também tomar banho, por que há muito tempo não sabíamos o que era isso. Enquanto isso fazíamos, o motorista providenciava a limpeza do seu caminhão.

Depois do nosso asseio, agradecemos o favor que o motorista nos prestara e pegamos logo a estrada para ver se chegávamos logo em casa, porque dali por diante era só asfalto. Bendito asfalto!

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No trajeto feito desde a cidade de Leopoldina, mesmo tomando cuidado na estrada a corrente algumas vezes deslizava, mas dava para fazê-la retornar aos dentes da coroa diminuído a aceleração. E olha, mesmo com esses cuidados, saiu várias vezes, fazendo-nos parar para recolocá-la.

O que muito ajudou para vencer algumas subidas mais íngremes e também curvas acentuadas nesse trecho foi o fato do piso ser de asfalto, ter retas longas que permitia imprimir velocidade à moto, aproveitando assim o embalo para fazer curvas íngremes e acentuadas. Mas quando ela não conseguia subir de forma alguma por ficar deslizando a corrente, nós dávamos uma ajudinha. Afinal de contas, depois de percorrer milhares de quilômetros carregando dois marmanjos debilóides, ela já estava cansada. Não custava nada, portanto, dar-lhe agora uma mãozinha. Então, quando não havia mais possibilidade de um mínimo de tração, nós a empurrávamos até ao topo da ladeira. Ocorrência essa que nos lembrou da chegada à Recife, quando tivemos de empurrá-la devido ao problema na válvula de descarga do motor.

O percurso foi todo ele debaixo de chuva, parando uma vez para reabastecer e calibrar pneus, outra rápida parada na casa do Fernando próximo ao centro de Duque de Caxias onde ele ficou, e de lá só parei em casa, já no final da tarde.

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Na volta e somente após ter chegado em casa, foi que reparei um detalhe interessante: Tanto o quadro elástico, quanto a parte inferior da mesa do telescópico que na ida quebraram duas vezes nos mesmos lugares, no percurso da volta não rachou uma vez sequer, fazendo-me deduzir ter sido a velocidade imprimida na ida a causa das rachaduras.

Para esse fato existe uma razoável explicação, que é a seguinte: Na viagem de ida, eufórico e encontrando a estrada seca, desconsiderei todo o peso que a moto carregava e resolvi imprimir grande velocidade na estrada cheia de buracos, valas e costelas. Com a força dos impactos nestes obstáculos ela ia sendo bastante castigada, severamente. Havendo ainda como um fator crucial, o fato dela não ser moto “trail” ou “motocross”, mas sim uma “street”.

Não obstante todas as dificuldades, enfrentou com grande denodo as adversidades e trouxe-nos são e salvos.

E francamente, passar o que ela passou, nem trator agüentaria!
Foi uma heroína!


A Chegada no Rio de Janeiro, dia 25/03/1960

E assim chegamos de volta ao Rio de Janeiro depois de 41 dias de viagem com mais de 6.000km percorridos e várias dezenas de tombos. Uns maravilhosos, outros nem tanto.

Enfim, com grande satisfação, pensei: Conseguimos! Vencemos o desafio.
Obrigado minha grande amiga/amante.
Obrigado Fernando.
Obrigado Deus por ter aturado, acompanhado e protegido dois malucos.

Agora, decorridos todos estes anos e após ter completado este livro, vejo com perfeita clareza que realmente Deus estava conosco.

Pois veja bem: Dos vários enfrentamentos que tivemos com a morte, saímos ilesos; Fome e sede pelas quais passamos, conseguimos sobreviver; Nenhum acidente grave sofremos, muito embora as loucuras que fizemos e tombos que tivemos; Dinheiro nos faltou mas sempre conseguimos suprir-nos nos momentos difíceis, às vezes até considerados insuperáveis. E isto assim aconteceu por que, além da simples viagem de aventura, havia algo mais que nos conduziu a isso. Pois tenho como certeza que:

O garoto com pruridos que o incomodavam demais, ficou bom graças ao Anaseptil, haja vista a fisionomia de satisfação por ele expressada, imediatamente após a aplicação do remédio;

As garotas foram compreendidas e conseguiram finalmente voltar para suas mães em Campina Grande-PB, trilhando a partir daí, certamente, um caminho mais seguro e confortável;

E que a menina, com infecção quase generalizada e a caminho da morte, teve uma chance e ficou boa;
Sem falar na família do médico que teve seu carro enguiçado na estrada debaixo de um solzão, e quando lá chegamos já encontramos dois indivíduos junto a eles, que ao nos verem caíram fora imediatamente.

Tudo isso aconteceu porque Deus estava conosco. Ia um pouco afastado, é certo, tendo em vista que ficar muito próximo de dois malucos é altamente perigoso.

Brincadeiras à parte, afirmo ter ficado emocionado com esta possibilidade de poder transmitir através dos relatos a solidária amizade que pode existir entre amigos e ‘irmãos’;
Do desprendimento que temos quando se trata de auxiliar o próximo; Da força de vontade que nos envolve para alcançar objetivos.

E finalmente poder dizer: Tenho orgulho de ser um bom motociclista.

Fim
 
 
 
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Comentários (4)

2/2/2017 23:16:47
VW9UAKOXX1Y
Good to see a talnet at work. I cant match that.
 
28/6/2016 15:35:43
EERK093URG
Cainllg all cars, calling all cars, were ready to make a deal.
 
24/1/2011 15:38:54
JOAO CARLOS MODESTO
Parabens joao e fernando, essa aventura foi maravilhosa, fiquei com inveja.quando eu ando com minha moto 300 kilometros acho que fiz o maximo.imagino então voces fizeram 6000 e ainda em 1960.mas como V. disse, DEUS, estava do seu lado.parabens e muitos kilometros.
 
23/1/2011 12:08:08
ROGERIO LACERDA
PARABÉNS GUERREIROS, MAIS UMA LENDA-VERDADE URBANA, O FIM É O INÍCIO DE UMA NOVA FASE... SEJA DE MOTO, TRICICLO OU MOTOR-HOME (COM A MOTO AMARRADA ATRÁS) É ASSIM MEU PROJETO;
FORTES MOTOABÇS, ZERINHO > GUERREIROS IMORTAIS MC
 

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