Aventura de Motocicleta em 1960

O RETORNO POR NOVA CONQUISTA

“Faço aqui uma pausa para dar uma razoável explicação: Naquela época as pessoas acreditavam mais umas nas outras - sem falar na nossa aparência de moços honestos (brincadeira...) - e também pelo triste mas real fato de não haver outra alternativa”

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...Continuando, a mãe da menina por estar em dúvida refletiu por algum tempo e depois falou: Está bem! Levem-na para o Hospital em Jequié, mas não deixem de me dizer onde ela ficou, moço, por favor! Pode ser que amanhã chegue um parente com um jeep. Se ele conseguir chegar, eu vou tentar ir lá.

Faço aqui uma pausa para dar uma razoável explicação: Naquela época as pessoas acreditavam mais umas nas outras - sem falar na nossa aparência de moços honestos (brincadeira...) - e também pelo triste mas real fato de não haver outra alternativa.

Enquanto nos ajeitávamos na moto junto com a garota, a senhora foi para a sala, demorou um pouco e na volta entregou-nos a autorização, que ali, na hora, escreveu. Deu-nos a certidão de nascimento da menina, foto da garota com ela (mãe) e falou: Por favor, saiam com cuidado e não deixem os vizinhos verem. Vão com Deus!

Deixamos a bagagem na pensão e pegamos a menina cheia de dores, colocando-a entre mim e o Fernando, que a seguir amparou-a com os braços. Nisso, a senhora colocou num saco plástico algumas roupas de dormir, o qual prendi no bagageiro que estava vazio. Ah, sim, um detalhe: Antes ela deu algo para a menina beber e então perguntamos o que era aquilo. Respondeu que se tratava de um calmante caseiro para aliviar as dores da menina durante o percurso.

Nota: Foi possível colocá-la “confortavelmente” entre nós, porque o banco (piloto/garupa) era inteiriço e plano.

Após algum tempo de muita atenção na estrada e a luta para passar pelos vários buracos escondidos sob a água e vencer pequenos atoleiros, o Fernando lembrou muito bem que o trecho pior estava por chegar, e quando lá chegássemos eu teria de saltar a fim de equilibrar melhor a moto e até empurrá-la se necessário.

É que havia um atoleiro com mais de 20 metros de extensão, de um lado ao outro da estrada, e que era perigosíssimo. Se nos outros atoleiros era difícil até moto passar, neste nenhum veículo passava, nem moto (porém isso não era conosco porque com malucos ninguém se mete, nem atoleiros), mas aconteceu que no dia anterior havíamos passado por ele. Com dificuldade, sem dúvida, porém passamos. Mas agora, devido à responsabilidade de estarmos com a moça, teríamos de agir com maior atenção e prudência.

Verificando então que do lado em que eu ia não poderia prosseguir por haver um caminhão tombado no extremo da estrada, além de outros atolados dentro dela, passei para a contramão (lado que tínhamos passado no dia anterior) e ao chegarmos no início do atoleiro saltei da moto com cuidado. Continuando com ela ligada, fui bem pelo extremo da margem, onde existia uma pequena elevação. Mantendo baixa aceleração e empurrando vagarosamente a moto, aos poucos ela ia passando sem atolar. Ao passo que eu atolava até às canelas. Os sapatos e meias não ficavam no atoleiro porque já os havia tirado desde a nossa saída da pensão.

Aos caminhoneiros que ali estavam ,uns de um lado e outros do outro lado do atoleiro sem poderem atravessar, e que já nos haviam visto passar no dia anterior, curiosos por verem a garota gemendo perguntavam qual o motivo, então falamos tratar-se de apendicite supurado e a estávamos levando urgente para o Hospital. Depois disso ouvirem, mais que depressa começaram a fazer tudo para ajudar-nos na travessia, a qual foi rapidamente superada graças a essa grande ajuda.

Dali por diante foi-nos possível continuar sem maiores problemas e chegamos tranquilos ao Hospital, onde fomos logo atendidos.

Após ouvirem nosso relato, verem a foto e documentos da menina, assim como a carta feita pela mãe com nomes, endereço e tudo mais, levaram-na urgentemente para dentro e passaram a cuidar dela.

Aguardamos um pouco e após informados estar tudo resolvido, levaram-nos até a enfermaria onde ficara a menina. Vendo que estava finalmente tranquila, que não mais gemia e que nada mais tínhamos a fazer, agradecemos a generosidade deles e saímos, dizendo que avisaríamos à família.

Nossa pressa maior era para que o comprador do rádio ou amigos dele não nos vissem por ali.

No caminho de volta os caminhoneiros nos elogiaram pelo feito, mas preocupados que ficaram com o problema da menina, perguntaram pelo resultado. Sem parar dissemos ter corrido tudo bem, melhor até do que esperávamos graças à ajuda deles e passamos com vivas e tapinhas nas costas enquanto andávamos devagar e sem parar.

Ao encontrarmos a mãe da garota informamos que tudo correra bem, falamos das urgentes e necessárias providências tomadas no Hospital, e que felizmente ela já estava sendo tratada numa enfermaria e fora de qualquer perigo. E pelo que ainda pudemos ver, já estava sem dor e até sua cor mudara de amarelo para rosa (embora ainda um pouco esmaecida).

A senhora não sabia como agradecer, quis pagar-nos pelo gasto que tivemos e o tempo que perdemos, o que recusamos. Mas devido à sua insistência, falei: Bem, já que a senhora está disposta a pagar tudo... Aí ela ficou aguardando o que eu ia dizer... Pois muito bem. A senhora então não vai nos cobrar o café da manhã que tomamos.

Enquanto apanhávamos nossas coisas, a senhora preparou uns sanduíches para nós e desejou-nos muitas felicidades.

O que aconteceu com a menina daí por diante, não soubemos.

Pegando estrada e já atrasados, passamos rapidamente pela cidade de Poções, onde fizemos uma parada rápida para limpar as velas por estar a moto falhando vez por outra e seguimos viagem logo depois.

O tempo estava nublado desde que saímos de Imbuíra, mas felizmente até agora ainda não havia chovido. O chão continuava péssimo, com vários atoleiros, onde víamos carros e caminhões parados, uns até inclinados nas margens da estrada, mas pelo menos não havia o incômodo do frio que a chuva causava.

Os grupos que se encontravam presos nos vários locais da estrada devido aos atoleiros e enchentes, haviam armado barracas com lonas para embaixo delas cozinharem o que conseguissem encontrar para comer.

Chegamos em Vitória da Conquista bem tarde e por coincidência conseguimos comer alguma coisa na mesma pensão onde comemos na ida para Recife. Embora já estivesse bem fora do horário de almoço, não houve dificuldade em nos servirem, por haver boa vontade deles para conosco. A comida realmente era bem saborosa e tinha variedade para se escolher. E não era cara, lógico, pois não nos cobraram nada!

Terminado o delicioso almoço nos despedimos do pessoal que ficou satisfeito com o nosso retorno à pensão e partimos em seguida.

O tempo continuava nublado mas firme, e a estrada com pouca umidade. Por estar transitável imprimi boa velocidade e fiquei apreciando os sítios e fazendas que haviam de um lado e do outro da estrada, onde bois e outros animais pastavam tranquilamente. Era um momento de paz, de harmonia universal. Nada de ruim ou mal poderia nos acontecer naquela aprazível mansidão de uma tarde morna e iluminada.

Tínhamos percorrido cerca de uns 200/300 metros após termos deixado a pensão, quando, na minha frente caminhando vagarosamente e fuçando o chão, um enorme porco atravessava a estrada indo da minha direita para a esquerda. Quando já estava praticamente saindo da estrada, talvez assustado pela descarga livre da moto, ele dá meia volta, corre grunhindo apavorado e volta para o mesmo sítio de onde saiu, ou seja, para a minha direita.

No que ele volta em desabalada carreira grunhindo alto por estar realmente assustado, esbarra na roda dianteira da moto e joga-nos ao chão. Isso aconteceu em 1 segundo. Olha..., porco assustado é imprevisível. É um mini-tanque à jato!

A mim aconteceu um fato interessante: Ao cair, possivelmente desmaiei por alguns segundos e tive a sensação de ter sonhado que estava em minha casa, acordando e levantando da cama. Agora, o que teve isso a ver com o acidente não me pergunte, porque não saberei como explicar. Acredito que nem Freud, também saberia!

Verificando se estava machucado, reparei ter arranhado bastante a mão esquerda (não colocara luvas) e a fronte no mesmo lado. Ao olhar para trás a fim de ver como estava o Fernando, reparei que acabara de levantar e caminhava até onde eu estava caído junto com a moto e perguntando se eu estava bem. Respondi que sim, e fiz-lhe a mesma pergunta, no que respondeu ter sofrido apenas um joelho ralado e também as mãos. A seguir, brincando, contou que o porco após ter-nos atropelado saiu rebolando para dentro do mato.

Verificando o que houve com a moto, vi ter o tanque ficado um pouco mais amassado e de ter quebrado um dos pedais de apoio do garupa.

Machucados e tendo de consertar o apoio, caso contrário o Fernando ficaria prejudicado na garupa, voltamos até Vitória da Conquista que estava perto e passamos numa oficina, deixando a moto e o pedal para soldarem-no e também desempenar o “quique”. E por incrível que pareça, fomos medicados ao lado, numa marcenaria, com verniz, porém não esquecemos de colocar o anaceptil que trazia comigo. Ao terminarmos a medicação, o pedal já estava consertado, o quique desempenado, e aí partimos.

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Embora tenhamos nos atrasado um pouco com esse acidente, agora o que temos a fazer é sacudir a poeira do barro, ir em frente e alcançar o mais rápido possível a cidade de Nova Conquista, que fica próxima à divisa da Bahia com Minas Gerais.

E vamos lá!

Estamos realmente saindo de Vitória da Conquista cerca das 17:00. A estrada está boa, tem algumas subidas, o que nos faz sentir mudança de temperatura, mas tudo correndo dentro da normalidade.

Já estava bem escuro quando chegamos a Nova Conquista.

Hospedamo-nos no mesmo hotel que ficamos na ida, e em conversa com o Fernando lembrei-me de mais esse tombo que levamos hoje. E a título de brincadeira falei que estávamos ficando profissionais em tombos, o que ele riu e concordou.

À noite saímos para dar uma volta e lembramos daquele céu estrelado, com luar luminoso que tivemos o prazer de ver e até usar (na ocasião estávamos sem farol e sem ele continuamos) quando passamos na ida. Agora, na volta, infelizmente há muito tempo não o vemos mais. Lembrei-me também da poeira que íamos comendo pelo caminho devido à estrada seca, e da mosquitada dando porretadas nos nossos rostos. Agora era só frio, chuva, lama e atoleiro. Mas como tudo tem a sua compensação, nada de mosquitos e nem poeira!

Achar o caminho de ida menor e mais rápido que o da volta, ocorre em toda viagem porque na ida tem as novidades que para nós são cenários virgens, ao passo que na volta, por vermos novamente os mesmos cenários de antes ela parece maior, aliando-se ao fato o natural cansaço. Isso conosco também aconteceu, muito embora tenhamos feito na ida caminho mais longo por termos sairmos da estrada principal, a Rio-Bahia, e nos dirigirmos para o litoral, perfazendo assim caminho maior. Agora, mesmo voltando direto pela Rio-Bahia, fazendo um trajeto mais curto, vendo outras paisagens pessoas e costumes, achamos o percurso longo demais. Certamente essa sensação teve como causa a intensa chuva, os atoleiros e o cansaço acumulado devido às agruras enfrentadas.

Cansado da viagem, das peripécias e por ter de acordar cedo pela manhã, parei com essas conjeturas e fui logo dormir. O mesmo fazendo o Fernando.

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Dia 22 de março. Nova Conquista - 38º dia.

Acordei cedo como de hábito e para variar o Fernando também acordou. Ambos estávamos sentindo os corpos doloridos, talvez em conseqüência do tombo que o porco baiano nos deu, assomando-se a isso o desgaste acumulado devido à viagem.

Verificando estar a moto em boas condições de tráfego, partimos imediatamente às 06:30h, com a expectativa de alcançarmos ainda hoje Teófilo Otoni, em Minas Gerais.

Após muitas subidas e descidas pelos muitos morros existentes na estrada, passamos pelo Posto de Divisa Alegre, isso já em Minas Gerais, mas não marquei a hora por estar a chuva incomodando muito e até dificultando-nos ver o panorama durante o trajeto.

Nas paradas que fizemos para descansar e às vezes tomarmos café, notamos que a sobra do nosso almoço em Vitória da Conquista, que guardávamos como reserva para a viagem, acabara. E o pouco dinheiro que ainda restava terá de ser utilizado exclusivamente para combustível, óleo quando necessário, e em alguma eventualidade que surja para a moto, desde que seja possível pagar com o que ainda tivermos.

 
 
 
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Comentários (2)

2/2/2017 20:05:30
2XHOF2CAGD7I
Thanks…When I originally commented I clicked the -Notify me when new comments are added- checkbox and now each time a comment is added I get four emails with the same comment. Is there any way you can remove me from that service? Th8&3s!n#a2k0;VA:F [1.9.8_1114]please wait...VA:F [1.9.8_1114](from 0 votes)
 
28/6/2016 08:56:34
VH8GAFN2N0
loub diT;bnsp&:très bien pour les supporters, pour le reste:Début du match 10h30 sur le Terrain Lesvière Rue du stade 44570 Trignac. Mais les joueurs arrivent à 9H30!!!!
 

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