Aventura de Motocicleta em 1960

SEGUE MAIS UM TRECHO DA HISTÓRIA

 
Pensando numa solução para tirar a moto dali, chegamos à conclusão que o único recurso seria fazermos um caminho com galhos das pequenas árvores (umbuzeiros) que haviam na beira da estrada. Foi o que fizemos.

Primeiro cortamos com o facão (havia levado) os galhos das árvores (eram galhos finos e com folhagem); a seguir os cortamos em tamanhos que dessem para as rodas passarem por cima deles com segurança, cerca de 30/40 cm; calculamos um pequeno espaço entre cada um deles, o suficiente para evitar que a roda afastasse um do outro e atolasse adiante outra vez; finalmente os colocamos na frente e em toda a extensão do atoleiro, começando junto da roda dianteira até ao fim do atoleiro.

Pronta a trilha, o próximo passo era desatolar a moto e para isso usamos as mãos. Quando já deu sinal de começar a mota se soltar, um de nós ficou segurando-a, enquanto o outro continuou cavando até liberá-la completamente. Livre do atoleiro, tratamos de empurrá-la para frente e colocá-la em cima da esteira que fizemos. Dessa forma conseguimos atravessar todo o atoleiro. Chegando do outro lado e já fora dele, pulamos para cima da moto e seguimos em frente, mas antes havíamos limpado sapatos e meias e o grosso da lama das mãos e dos pés em poças da água da chuva. Nessa brincadeira perdemos cerca de meia-hora. Tudo isso embaixo de chuva.

Ao chegarmos novamente na estrada principal, um pouco antes de um local chamado Mimoso, a gasolina acabou. Não pedimos gasolina a ninguém, porque os poucos que passavam não queriam parar com receio de atolar e além do mais não iriam gostar de tirar gasolina debaixo de tanta chuva. Mediante tal situação, não havendo Posto de gasolina próximo (o que era normal), após algum tempo de espera o Fernando conseguiu, sem que o caminhão parasse, arranjar carona num FNM (andam devagar) para ir adiante até a cidade de Arcoverde, distante 8/10km, pegar gasolina. Eu então fiquei com a moto na beira da estrada esperando-o voltar.

Parado passei a sentir frio, e o pior, caía chuva grossa. Não tendo onde me proteger, apanhei o oleado que cobria as maletas e com ele, sentado na moto, me cobri.

Já era quase noite quando o Fernando voltou de carona, com a gasolina. Além do Posto ficar muito longe, havia a dificuldade do trânsito de veículos pela estrada cheia de atoleiros, sem se falar do temporal. Após abastecer o tanque fomos obrigados a andar à noite debaixo de chuva forte e sem farol até a cidade de Arcoverde, onde chegamos por volta das 19:00h e nela pernoitamos. Se perguntarem onde foi que dormimos, não saberíamos responder, de tão exaustos que estávamos.

Devido à hora, a chuva e ao frio que fazia, inclusive por causa de atoleiros, o trânsito na estrada era quase nenhum, razão de quase não haver vivalma no caminho que percorremos.


Arcoverde – PE - 32º Dia.

Acordei cedo e o Fernando como sempre continuava dormindo. A chuva continua caindo com menor intensidade, mas não parou desde ontem.

Antes de sairmos limpamos a lama que vez por outra está prendendo o pistão do carburador, fato este que representa grande perigo para nós.

Então, às 08:30h coloquei gasolina e pegamos estrada. A chuva continua miúda, mas daqui a pouco poderá cair um “toró”, o que faz a estrada ficar totalmente mole parecendo que estamos andando sobre doce de leite, obrigando que andemos somente em 2ª marcha e vez por outra em 3ª marcha.. Na 4ª e última, nem pensar. Neste momento fizemos uma parada e estamos sozinhos abrigados num Posto de gasolina abandonado, descansando e dando um tempo por causa da chuva que está caindo mais pesada.

Nossa provisão de comida deve acabar hoje à noite. Água não temos e nem bebemos dos rios por estarem totalmente imundas, mas temos chupado umbu que tem suco azedinho e tapeia bem a sede. Agora são 09:00h e nos afastamos de Arcoverde apenas cerca de uns 10km. Tendo a chuva melhorado, vamos em frente.

Passamos próximos da Fazenda Santa Luzia cerca das 11:00h e chegamos ao povoado de Placas às 12:00h, onde comemos nossa carne de sol. Este trecho de estrada é também ruim, com vários atoleiros tomando toda a largura da estrada, o que obriga sair dela e ir para o mato (quando é possível), ou então subir pequenos barrancos para sair dos atoleiros. Novamente já aconteceu de sairmos da mota, deixando-a em pé para fazermos os mesmos procedimentos adotados lá atrás, próximo a Caruaru.

Falando nessa cidade, agora na volta não entramos nela para rever o pessoal hospitaleiro, por causa da chuva que estava terrível na oportunidade. E também pelo fato de termos errado a estrada, caindo inclusive no atoleiro no qual fizemos esteirinha de gravetos para poder passar.

Hoje, quase não tem trânsito na estrada. O pouco que tem é pelo deslocamento de veículo de um povoado para outro próximo, pois quem se atreve ir mais longe chega num ponto que atola ou tomba. E carro, ônibus ou caminhão atolando, só quem tira do lugar é o trator, mas até trator atolado e virado já vimos pelo caminho.

Passamos por vários lugares onde só motocicleta passa e mesmo assim tem de ser “artista” para passar. Muitos caminhões, ônibus, carros e pessoas estão presos na estrada. De trecho em trecho passamos por grupos de motoristas que se juntaram a fim de se protegerem contra algum assalto e também sobreviverem quanto à alimentação. Soubemos que muitos desses grupos assaltaram casas, sítios e fazendas próximas a eles, furtando animais para matar e depois comê-los.

Quando vagarosamente passamos por esses grupos na estrada, eles dão vivas, gritam e gesticulam para nós, porém não paramos. Simplesmente acenamos e passamos ao largo.

Com muita dificuldade chegamos numa pequena aldeia de nome Peba, às 17:00h e nela pernoitamos.

Em alguns povoados por onde passamos, ouvimos comentários que o presidente Juscelino Kubitschek mandou jogar víveres de paraquedas nessa e em outras regiões, a fim de evitar as invasões na busca por comida. Ouvimos também que a ponte em Petrolândia, situada sobre o Rio São Francisco, havia sido destruída pelas forças das águas do rio (onde nós jogamos uma pedra da ponte até ao leito do rio). Então pensamos: Se isso aconteceu, houve um dilúvio, uma verdadeira catástrofe. Até lembrei-me da Arca de Noé.


Peba - PE - 33º Dia.

Nessa aldeia dormimos num quarto que deveria ser o hotel dos morcegos da região. Eram muitos, ágeis e ficaram voando durante toda noite dentro do nosso quarto que, mesmo com a janela aberta não iam embora. Se um ou outro saísse, não demorava muito e logo estava de volta (o mesmo morcego, ou até outro, sei la, porque todos são iguais) e se pendurava na parede bem próximo ao teto, parecendo que se revezavam a fim de brincarem conosco. Ainda bem que são silenciosos mesmo no vôo e não são hematófagos. Brincando, disse ao Fernando para ele dormir com o rosto coberto, a fim de não assustar os pobres bichinhos.

Tendo a noite transcorrido com tranqüilidade, acordamos cedo e saímos do local às 07:00h, com a pretensão de chegarmos logo a Paulo Afonso, já no estado da Bahia. Mas quando passarmos por Petrolândia vamos verificar se a ponte ruiu mesmo, conforme o pessoal nos lugares por onde passamos vem dizendo. Se ruiu é porque houve realmente um verdadeiro dilúvio.

A estrada por aqui está bem pior, tanto que já vimos vários caminhões tombados dentro e fora da estrada. Pequenas pontes de cimento por estarem danificadas, não estão permitindo a passagem dos veículos. Mas nós estamos conseguindo passar.

A chuva de tão insistente, grossa e pesada, nos castiga e machuca bastante quando bate no nosso rosto, parecendo até pedradas que recebemos.

Estava tão incomodativa, que obrigou-nos pedir abrigo a um senhor que estava na porta de um casebre de pau-a-pique próximo à estrada, olhando a chuva pesada cair na estrada.

Encontrava-se em pé na porta de uma choupana com teto de palha, paredes de barro com bambu e chão de terra. Parei na sua frente e perguntei se poderia deixar-nos entrar um pouco até que a chuva se acalmasse, porque ela estava nos machucando.

Gentilmente mandou-nos entrar e sentamos os três num tosco banco de madeira. Passado algum tempo perguntou-nos se queríamos ver a casa, dissemos que sim e então nos acompanhou para mostrá-la. Havia a pequena sala onde tínhamos estado, onde o único móvel existente era o banco no qual sentamos. A seguir passamos por um quartinho escuro, mas deu para notar esteiras e trapos no chão, que deveriam ser camas, e vimos também outros trapos pendurados dentro do quarto, talvez fossem roupas. Na sala onde estávamos sentados e encostados numa parede, atrás ficava a cozinha num reduzido espaço onde vimos uma mesinha de madeira, um fogão à lenha feito de tijolos, uma panela de ferro tampada e mais nada. Nenhum mantimento havia à vista. O banheiro nem perguntamos, mas deveria estar do lado de fora do casebre.

Perguntando-lhe quem morava na casa, calmamente respondeu: Ele, a mulher e uma filha que ali não estavam por terem ido para a roça trabalhar. Ele não foi porque chovia muito e está se curando de uma tuberculose. E completou dizendo que quando elas voltassem fariam a comida do dia com o que trouxessem da roça, onde trabalhavam como meeiros.

Aí pensei: São sobreviventes, denodados guerreiros, caem feridos mas não se abatem. Continuam bravamente lutando, mesmo extenuados que estejam devido à árdua e diuturna batalha.

Notando ter parado de chover, nos despedimos do anfitrião para irmos embora. Desejou-nos boa sorte e nós desejamos muita saúde para ele, mas mentalmente o que também lhe desejei é que pudesse, brevemente, experimentar algum sucesso. Ele e a família guerreira.

Mais adiante, ao passarmos por Ibimirim e querendo saber o que aconteceu com as garotas, Gabriela e Mariazinha, mas receosos de qualquer problema devido à noite em que fomos surpreendidos e tivemos de fugir pelados pela varanda do quarto delas, encontramos na pracinha um rapaz que as conhecia (em povoado pequeno todos se conhecem). Conversa vai, conversa vem, perguntamos se ele conhecía a Gabriela e a Terezinha, e se poderia chamá-las pois tínhamos um recado para elas. Imediatamente nos diz que as conhecia, porém não poderia chamá-las porque não tem muito tempo vieram buscá-las e pelo que parece foram para a Paraíba.

Satisfeitos com o que ouvimos, agradecemos a gentileza do rapaz e seguimos viagem. Mas não antes de ouvir o Fernando dizer: Bom, pelo menos valeu à pena ter caído na cova enlameada.

O mais estranho no tempo é que, quando chove muito tem atoleiro para todo lado, mas basta um dia de sol para secar o barro e ficarem valas profundas feitas pelos pneus dos grandes caminhões ou tratores, o que também é muito perigoso para nós. Tombos já levamos muitos, com média de quase um por dia, sendo que certa vez em um só dia caímos 2 vezes. Não temos nos machucado nem a mota se prejudicado muito, pelo fato de estarmos viajando em baixa velocidade por causa do chão com poças e atoleiros. Mas quando o sol surge e o barro seca, além dos buracos e valas criados durante o período chuvoso, temos mais um problema ao sentirmos cheiro de borracha queimada: É que, por ser moto “street”, ou seja, para andar nas ruas das cidades ou estradas asfaltadas, o paralama dianteiro tem afastamento mínimo com o pneu. Então, quando o barro molhado que fica depositado embaixo dele seca devido ao atrito do pneu ao passar nesse barro, a roda vai ficando presa, a velocidade vai diminuindo e aí começamos a sentir o cheiro da borracha queimada devido ao atrito do pneu no barro endurecido.

Para retirá-lo enfiamos o facão por baixo e ao longo do paralama e assim o desgrudamos.

Por falar em facão, infelizmente ele caiu na estrada e não vimos onde. Vai nos fazer muita falta porque, além de tirar o barro seco do paralama, com ele cortávamos os galhos das árvores da caatinga para fazermos esteirinhas a fim de liberarmos a moto dos atoleiros. Isso quando as árvores não estão cobertas de água devido a esse dilúvio que deixa somente um pouquinho da sua copa verdinha aparecendo. Olhando da estrada, parece estarmos vendo mar com ilhotas de corais ou arrecifes. O que estava seco e marrom na ida por esse sertão, agora na volta está verde e belo.

O umbu, que é a fruta mais encontrada em quase toda a extensão da estrada, na ida quando havia muito sol ele tinha pouco sumo e era amarelecido. Agora, com essa chuva, tem bastante caldo para matar nossa sede na falta de água limpa para beber. Haja vista as águas imundas dos rios que por estarem caudalosos a cor é escura, quase marrom.

Malgrado toda nossa dificuldade, hoje passamos por Petrolândia, ainda em Pernambuco. A seguir atravessamos para o estado da Bahia passando por Paulo Afonso e fomos dormir em Jeremoabo. E o melhor, a ponte em Petrolândia, que o pessoal retido na estrada dizia ter caído com a força das chuvas, felizmente estava intacta, exatamente igual quando por ela passamos na ida.

Hoje, graças a dois fatores, conseguimos percorrer uma boa distância: Primeiro, a estrada estava muito boa até Jeremoabo pelo fato de terem passado a máquina por esse trecho no dia anterior, nivelando a pista; Segundo, foi a ajuda que tivemos do carburador, que passou a dar menos problemas em não mais prender o pistãozinho, depois que nele passamos a colocar gaze (tinha comigo para o meu ferimento na perna). Quando notávamos que a gaze colocada no bocal da entrada do ar, ia ficando com marca de barro e começava dificultar a entrada de ar, trocávamos por outra limpa. Com isso, dificilmente tínhamos de parar para desmontar o carburador. Dessa forma chegamos tranqüilos em Jeremoabo.
Detalhe: Para evitar que o carburador afogasse, prendíamos no bocal da entrada do ar, somente a quantidade certa da gaze dobrada.


Jeremoabo - BA - 34º Dia.

Logo cedo procuramos uma oficina para ajeitar o paralama traseiro mais uma vez e aproveitamos a sua retirada para limpar o barro nele acumulado, muito embora não estivesse causando qualquer problema à moto nem a nós. Colocamos também óleo no cárter e verificamos a calibragem dos pneus.

São 08:30h e hoje vamos pegar uma estrada aparentemente boa e o que é melhor, não está chovendo. Pelo contrário, faz até um solzinho muito bom. O que nos preocupa agora são os buracos, as valas e o pó do barro acumulado na beirada da estrada em toda a sua extensão, que formava uma pequena elevação, local esse onde gostava de andar em velocidade, embora fosse perigoso.

Estou lembrando da nossa ida, que foi praticamente só embaixo de sol e o pó do barro ficava exatamente como este que está agora na beira da estrada. Às vezes, naquela ocasião para fugir dos terríveis buracos, eu preferia andar bem na margem da estrada, exatamente por cima dessa pequena elevação feita pelo pó da estrada, oportunidade em que até imprimia grande velocidade. Sendo até possível ser essa a razão do quadro da moto ter quebrado em dois lugares, duas vezes em cada lugar. Pois num piso desses, se imprimir velocidade, até trator quebra. Haja vista os muitos caminhões, com molas e diferenciais partidos pelo caminho. Pior ainda se o veículo estiver com carga em demasia, que é o caso da moto, coitada.

Não andamos muito e mais adiante vimos, atravessando calmamente a estrada, uma aranha caranguejeira. Paramos e saltamos para ver esta, bem de perto (antes dessa já tínhamos visto outras, mas não parávamos). Realmente, pode ser perigosa porém é uma espécie muito bonita, parecendo ser macia devido aos pelos, dando vontade de pegá-la. Enorme, peluda com cores marrom e laranja, mede cerca de 20cm de diâmetro e como corre. Quando vem em nossa direção temos de correr. Acho que corre assim apenas para assustar porque, na realidade, ela é quem deverá estar mais assustada que nós, tanto que, ao chegarmos perto, levanta as patas da frente como se estivesse orando ao céu, ou exclamando: “Pô, como esses caras são chatos”!

Então, após termos incomodado um pouco a aranha e visto como é bonita, continuamos nossa trajetória.

Grande abraço
João Cruz
 
 
 
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Comentários (1)

2/2/2017 20:27:58
V9E3GYL8BKWM
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