Aventura de Motocicleta em 1960

DESPEDINDO-NOS DE CAMPINA GRANDE - PB E INICIANDO RETORNO AO RIO

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O tempo amanheceu nublado e com chuva miúda. O pessoal do Clube passou no hotel e nos chamou para irmos tomar um banho a vapor (banho turco) numa casa especializada. Terminado o banho levaram-nos até a oficina do Barros para apanharmos a mota que ficou totalmente recuperada. A seguir nos levaram ao 13 Futebol Clube para assistirmos ao Bingo, onde, segundo nos informaram, a terça parte dos campinenses vai lá jogar.

Sendo hora do almoço, nos convidaram para almoçarmos.

Terminado o almoço fizeram novo convite, desta vez para irmos até ao aeroporto, passeio este que acabamos esticando até ao Açude de Bodocongó, já debaixo de chuva, e indo até ao Posto Fiscal existente no local e daí voltamos.

Nisso que voltamos, reparo que a chuva está ficando agora mais forte e constante.
Nota: Açude de Bodocongó foi o ponto máximo da nossa viagem e o último onde carimbei o caderninho na viagem de ida.

Dia seguinte, acordamos às 06:00h, tomamos nosso café reforçado e o gerente do hotel nos diz que nossa despesa está por conta do Moto Clube. Agradecemos a atenção que nos foi dispensada no hotel, pegamos nossas maletas com roupas e nos encaminhamos até à moto que estava na loja com as pastas das ferramentas nas suas laterais.

No caminho ia sentindo que havia alguma coisa de estranho e por isso até comentei com o Fernando, no que concordou. É que ninguém do Clube havia aparecido para despedir-se de nós. Nem os nossos diuturnos e notáveis cicerones. Mas de qualquer forma fomos muito bem tratados por todos eles. Até melhor do que realmente merecíamos.

De repente, qual não foi nossa surpresa quando dobramos no quarteirão e já estávamos próximos da loja. É que um grupo enorme de motociclistas nos esperava próximo à loja. Na frente do grupo estava o Presidente Agenor, acompanhado do tesoureiro Mário, dizendo tratar-se de uma surpresa e que teriam prazer em nos levar até à estrada, tal qual um comboio com direito a batedores.

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Conforme anotação no caderninho, hoje dia 14/03/1960, representa que estamos há um mês viajando. Desculpe, 1 mês e 1 dia porque o ano é bissexto. Agora, de volta para Recife, vamos fazer uma parada em João Pessoa, onde pretendemos dar uma volta pela praia de Tambaú porque o Fernando diz ser muito bonita.

Nesse nosso retorno passamos novamente pelo Posto Policial de Café do Vento, mesmo Posto onde no dia 11 de março carimbamos o caderninho quando subíamos para Campina Grande, mas só que dessa vez não eram os mesmos dois policiais que lá estavam.

Parando para pedir que colocassem o carimbo, enquanto um deles ficou conversando com o Fernando, o outro veio conversar comigo. Este viu a moto, me olhou de cima embaixo e então falou para que lhe mostrasse minha carta de habilitação (de todo o trajeto foi o único que pediu o documento). Tirei-a da minha carteira e lhe entreguei (era de cartolina, com foto, ano 1953, Categoria A, Prontuário 200.822, assinado pelo Diretor Estrela). Ele olha para ela, olha para mim e diz estar registrado na carteira “obrigado ao uso de óculos”. Respondi que sim e que eu estava de óculos como ele podia ver. A seguir me pede a receita dos óculos. Eu, perplexo com a burrice ou esperteza dele, perguntei: Por que, por acaso você tem aí aparelho para medir o grau?

Nisso, notei que o outro guarda que conversava com o Fernando havia percebido o lance do colega e então por trás dele, e no ouvido, falou baixinho (mas eu escutei): Eles são cariocas, da capital! (essa expressão capital referia-se a Distrito Federal, pois na época a capital do país encontrava-se no Rio de janeiro).

Foi o suficiente para que ficasse “na dele” e imediatamente me devolvesse a carteira. O outro, então, gentilmente pegou o caderninho e carimbou-o. Agradeci e fomos embora sem olhar para a cara do pretenso espertalhão ou notório bobalhão.

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Nota: Nas consultas que tenho feito no caderninho, venho verificando que a quase totalidade das anotações nele colocadas, foram feitas com excelente caligrafia, o que mostra ter havido, na época, grande cuidado do Governo por esse item no tocante à educação. Haja vista livros antigos de Registros em Cartórios, Atas, inclusive cartas, e originais de livros, feitos com caligrafia legível e elegante. Antigamente, por não existir máquina de datilografia e muito menos computador, todos os textos eram feitos à mão, razão das letras serem belíssimas.

Mais adiante chegamos de volta na cidade de João Pessoa, atravessando-a e indo direto para a paradisíaca praia de Tambaú.

Vendo-a pela primeira vez num dia de sol maravilhoso e céu totalmente sem nuvens, extasiei-me com aquela visão espetacular.

Imenso mar com águas mornas e límpidas nas cores verde e azul, a perder de vista na linha do horizonte. Cores que, adquirindo matizes e nuanças graças à existência de corais e tendo por parceira a luz solar, maior beleza proporcionavam àquela linda visão. Mais distante, mas dentro desse mesmo quadro espetacular, aflorava-se das águas uma faixa de areia em forma de coroa, dando majestosa visão ao lugar.

Destacavam-se também nessa natureza, coqueiros, palmeiras e grandes árvores frondosas, fincadas nas brancas areias existentes em toda a orla da extensa praia.

Nossa chegada coincidiu com o momento em que dois pescadores haviam retirado do barco pesqueiro dois cações-lixa, medindo 2m cada um, colocando-os sobre plásticos abertos na areia a fim de cortá-los.

Embora estivéssemos na areia, consegui colocar a moto no seu descanso central e fomos a pé até onde estavam os pescadores. Nesse instante, lembrando-me da garrafa de cachaça que nos foi dada de presente em Campina Grande e o fato de pescadores gostarem de cachaça, voltei até a moto e apanhei-a.

Vendo o trabalho deles e com eles conversando, tirei a tampa da garrafa, bebi um gole e a seguir ofereci-a ao Fernando e aos dois pescadores. Enquanto eles bebiam, eu e o Fernando ficamos admirando aqueles belos e fortes cações (tubarões). Ao voltarmos nossa atenção para os pescadores e perguntarmos pela garrafa, da qual só tínhamos provado um pequeno gole e pretendíamos beber mais, eles simplesmente disseram que havia acabado e apontaram a garrafa vazia, já caída na areia da praia. Aí, só nos restou lamentar.

Satisfeitos pela bela visão da praia de Tambaú, às 11:00h prosseguimos viagem de retorno em direção à Recife, lá chegando às 13:30h.

Nota: Não mencionei o Hotel Tambaú, hoje existente nessa praia, porque na ocasião ele ainda não havia sido construído, o que lamento por se tratar de uma arquitetura belíssima, instalada em local que se pode considerar verdadeiro paraíso tropical.

Por ser hora do almoço quando chegamos em casa, a Sra. mãe do Fernando nos serviu uma gostosa refeição. Terminada, tratamos de providenciar os preparativos para a viagem de retorno ao Rio, que pretendíamos fazer no dia seguinte pela manhã.

Tendo sobrado um tempo para distrair-nos, então no final do dia fomos até à cidade passear.

Ao voltarmos para casa a Zezé nos pergunta se precisávamos de algum dinheiro e então respondi se poderia emprestar-me novamente alguma importância, que lhe pagaria no Rio quando fosse encontrá-la, já que ela se preparava para voltar para o Rio, só que de avião.

Recife, 15 de março de 1960.

Dia do retorno ao Rio - 31º Dia.

Uma verdade afirmo: Se para nós a viagem até Recife castigou-nos bastante e achamos ter sido extremamente dura, se a compararmos com o que aconteceu no nosso retorno ao Rio, a viagem ao Recife pode ser considerada um passeio que fizemos no paraíso.

Para começar nossa desdita, o dia amanheceu nublado e chuvoso.

Saímos com algum dinheiro, um saco plástico contendo galinha assada com farofa e outro com carne de sol também assada com farinha, e colocamos tudo dentro de um dos bornais. Isso iria nos alimentar possivelmente por uns 2/3 dias.

Primeiro comeríamos a galinha com farofa, porque estraga mais rápido, depois a carne de sol, que resiste por mais tempo.

Agora que estamos partindo, o céu continua nublado porém não está chovendo. O que é muito bom!

Despedimo-nos do pessoal e falei para a Zezé que a encontraria no Rio logo assim que eu e o Fernando, irmão dela, chegássemos. Isso porque, ela voltando de avião, mesmo saindo dias depois, chegaria bem antes de nós.

Pegamos estrada molhada, mas como o piso nesse trecho é asfaltado, por enquanto está muito bom para transitarmos. Após longa subida chegamos em Jaboatão, onde dessa vez pagamos o pedágio, apanhamos o talão e o entregamos em Vitória de Santo Antão. Maravilha! Tudo bonitinho.

Mas o guarda que liberou nossa passagem na ida não estava lá. E como não tínhamos o seu nome, dando as suas características o seu colega que lá estava acabou identificando-o. Após identificado, deixamos então a importância para que ele a entregasse ao colega.

Já agora em estrada de terra, passando pela cidade de Gravatá que fica na subida da serra da Russa, aconteceu de furar novamente o pneu que estava com a câmara de ar nova, comprada em Caratinga, agora velha devido aos muitos furos que teve quando estava sendo usada no antigo pneu cortado. Razão de termos agora de trocá-la por outra.

Quando já estávamos próximos à Caruaru encontramos um impedimento na estrada, onde havia placa informando para que pegássemos uma estradinha lateral em direção à Bom Jardim, o que imediatamente fizemos.

Aconteceu, porém, que essa estrada de terra ia dar em nada, talvez porque eu tivesse errado o caminho devido à chuva que caía forte há bastante tempo. Mediante isto fiz o retorno e vendo haver outro caminho por ele segui, mas aconteceu de mais adiante a mota ficar presa num enorme atoleiro. Atolou tanto, que nós saímos de cima dela e ela continuou em pé, sozinha, no mesmo lugar. Era uma situação desagradável, porém tivemos de rir do inusitado. Cerca de 1/3 das rodas ficaram dentro do barro, inclusive o cárter que foi a base para ela ficar em pé sozinha. Por um momento ficamos olhando para ver o que íamos fazer para desatolá-la e enquanto isso uma terrível chuva caía.

A extensão do atoleiro à frente era enorme, cerca de uns 10 metros. Se a desatolássemos de onde estava, ela não poderia ir adiante, porque o atoleiro continuava. Nossos pés e parte das calças era só lama. Sapatos e meias que haviam saído dentro do lamaçal, os retiramos, limpamos e guardamos.

Pensando numa solução para tirar a moto dali, chegamos à conclusão que...
 
 
 
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Comentários (2)

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