Aventura de Motocicleta em 1960

INDO DE RECIFE - PE ATÉ CAMPINA GRANDE - PB

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Passamos por Olinda, seguimos e pegamos a estrada para Paulista que é asfaltada, depois outra que vai para Goiana que tem trechos com asfalto de um só lado da pista, e o resto é terra molhada porque às vezes chove e às vezes pára.

Vimos ter nesse trajeto muitos pés de caju, casas (pau-a-pique) e notamos ser região pobre e deserta.

Seguindo, passamos pelas cidades de Mata Redonda, Cruz das Armas e finalmente chegamos em João Pessoa às 11:30h. E por termos passado casualmente em frente ao Jornal A União, paramos, tivemos boa recepção e fomos demoradamente entrevistados.

Por ser hora do almoço aproveitamos e almoçamos nesta cidade. Após terminarmos partimos imediatamente em direção à Campina Grande para cumprirmos logo a promessa feita à Gabriela e Mariazinha.

Percorremos uma estrada que ora tinha um lado asfaltado e ora outro, porque estavam fazendo obras de pavimentação. Havia também muito chão de terra e muita subida. O tempo até que estava bom por ali e após subirmos bastante, o piso passou a ser só asfalto.

Num certo momento, não sabendo o que deu na cabeça do Fernando, assim como quem não quer nada, de repente grita lá detrás: Oh João, me deixa pilotar um pouco a moto, acho que aqui não tem problema e você poderá descansar sua perna. Aí, pensei: Ele não tem carteira e não sabe pilotar direito. Disto eu tinha conhecimento, porque uma vez em Teresópolis-RJ pediu-me a moto emprestada para dar uma volta. Numa “barbeiragem” que fez, entrou numa loja através da vitrine com mota e tudo (ainda bem que não se cortou nem se machucou). Resultado: Houve as despesas do material danificado na loja e também da roda que empenou e por isso teve de ficar em Teresópolis para ser enraiada durante a semana. Assim, só nos restou voltar de ônibus para o Rio.

Continuando: Bom..., isso aconteceu já tem algum tempo, pensei. E convenhamos, o dia está com um bonito sol; estamos indo estrada acima, o que dá mais aderência à moto; pouco trânsito; estarei na garupa para qualquer anormalidade; e poderei descansar a perna machucada. Mediante essa profunda análise “técnico-psicológica”, que não me deixará errar, achei que deveria deixá-lo pilotar.

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Parei a moto no acostamento mas continuando com ela ligada, passo para o lugar do garupa. Ele senta na frente, pega a manete da embreagem e aperta; a seguir empunha o acelerador, dá aquelas características aceleradas habituais, vrum, vrum, vrum; Com o pé direito dá um toque na alavanca de mudanças e com isso engata a primeira marcha (naquele tempo as motos tinham a alavanca da marcha no lado direito e o pedal do freio no lado esquerdo. Foram os japoneses que trocaram as posições dos pedais, acompanhando o que acontece nos carros). Até ai, tudo bem. A seguir vai soltando a manete da embreagem e a mota dá uns pulinhos... e, lá vamos nós! Na segunda e terceira marchas percebi que passou certinho e nos tempos corretos, encaixando finalmente a quarta e última marcha, liberando completamente o motor.

Bom..., continuando então pela excelente estrada, que no momento somente nós por ali transitávamos acalentados por um sol de morna e gostosa temperatura, íamos pelo suave aclive da estrada com quase nenhum trânsito, havendo apenas em nossa frente uma longa reta.

Até aí continuava tudo bem. Agora vejo que lá em cima no fim da reta tem uma curva para a direita, mas tudo bem porque estou aqui atrás. Olho a bonita paisagem e reparo ter no nosso lado esquerdo um precipício maravilhoso e do lado direito uma barreira. Continuava tudo bem, novamente. Aproximando-nos da curva e embora estando na garupa, como de hábito e instintivamente, começo a fazer a tomada de curva, já inclinando o corpo para a direita a fim de ajudar o piloto. Reparei que o Fernando não estava fazendo a tomada da curva, pelo fato de não ter-se inclinado e nem movido o guidão. Inclino-me então um pouco mais e o Fernando nada, continua seguindo em frente. Isso tudo está acontecendo em segundos.

Vendo então que nós já íamos sair reto da estrada e cair no maravilhoso despenhadeiro, joguei todo o corpo para a direita, não importando se íamos ao chão (melhor cair do que ir despenhadeiro abaixo). E eis que por sorte nossa: 1) Não vinha descendo nenhum veículo. Se viesse nos atropelaria, por termos ido para a contramão; 2) A moto não caiu no asfalto porque, mesmo desequilibrada para a direita, ao derrapar e bater com as rodas dianteira e traseira no meio fio, no impacto equilibrou-se e ficamos, embora na contramão e junto ao meio-fio, em posição correta para continuarmos a subida.

Após o susto e por ter continuado na mesma seqüência da subida, o Fernando continuou acelerando a moto. Nisso, imediatamente gritei: Pára! Pára! Ele parou e, por incrível que pareça, vira-se para mim e pergunta: Por que pediu para parar? Incrédulo, olho pra ele e digo. Você não sabe por que? Não viu a curva, nem o precipício? Respondeu que não. Eu, por minha vez, disse-lhe ser impossível que não tivesse visto uma curva tão acentuada. Por fim então respondeu que deve ter sido por causa dos óculos que deixava entrar um ar estranho que o incomodava e prejudicava sua visão.

Passei para o meu lugar de piloto, ele voltou para a garupa e fomos embora sem mais comentários.

Passamos pelo Posto da Polícia Rodoviária de Café do Vento, onde o policial escreveu um comentário sobre a nossa passagem por lá e não demorou muito chegamos em Campina Grande. Cidade grande, bonita, organizada, bem atualizada, dotada de muito comércio e de indústrias, o que me fez achá-la mais moderna que a de João Pessoa.

Nela entramos às 15:30 do dia 11 de março.

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Sem qualquer pressa fizemos o percurso Recife-Campina Grande em 07:00h, incluindo um passeio rápido, o almoço e a entrevista ao jornal A União em João Pessoa.

Por estar me sentindo mal no caminho devido dores na perna e sensação de febre, cheguei muito abatido em Campina Grande.

Logo na chegada encontramos muitos motociclistas, que nos parabenizaram pela jornada e convidaram-nos para que fôssemos até ao Moto Clube local. Agradecemos, mas respondemos que teríamos prazer em ir, mas agora íamos para um Hotel descansar.

Sentindo-me mal, achei por bem ficar deitado no quarto do Hotel que os motociclistas nos havia indicado. Instalados e após ter tomado banho, deixei por conta do Fernando conseguir um local para guardar a moto.

Dito e feito. Desceu e foi providenciar onde guardá-la. O Fernando, como já devem ter notado, era um “cara” imprevisível, mais parecendo uma criança.

Após ter descido, escutei por várias vezes ele “quicando” a moto, porém ela não pegava. Agoniado com aquilo, me vesti e desci, mas estando ainda dentro do Hotel escutei a moto pegar e sair.

Depois de esperar algum tempo na porta do Hotel e ele não aparecer de volta, vendo um motociclista que estava próximo a mim, perguntei-lhe se tinha visto o meu amigo com a moto. Respondeu que sim e falou: Foi para o Moto Clube, junto com o pessoal daqui. E no mesmo momento perguntou se eu queria ir também, já que iriam homenagear nossa chegada à Campina Grande. Concordei, subi na garupa e fomos para lá.

Chegando ao Moto Clube receberam-me com animação e abraços e logo ao entrar vi o Fernando já comemorando com eles. Nem cheguei a sentar, disseram que iriam levar-nos para jantar. Saímos e levaram-nos a um restaurante próximo dali. Percebendo meu mal estar em razão da perna que parecia infeccionar, terminada a refeição fizeram questão de me levar até um Posto de Enfermagem para que fosse tratado o ferimento, o que foi feito. O enfermeiro que cuidou do curativo, tomando conhecimento do caderninho, fez questão de colocar nele uma mensagem sobre a visita ao Posto de Enfermagem.

Dali levaram-nos a uma loja próxima ao Hotel, onde guardamos a moto. Depois, eu e o Fernando nos dirigimos ao Hotel a fim de dormirmos.

Isso aconteceu na nossa chegada, dia 11 de março.

Dia 12 de março. Campina Grande 28º Dia.

No dia seguinte descemos para tomar café e lá estavam dois motociclistas do Clube para fazer-nos companhia e contarem as novidades da região. Um deles chamava-se Joaquim e o outro João, sendo que o primeiro já tinha sido presidente do clube e aparentava ser um senhor de idade.

Grande cabeleira branca, possuidor de uma HD 1.200cc muito bem tratada e ornamentada. E pelo que me lembro, foi a única moto com aquela cilindrada que vi por ali. Em conversa, pediram para que ficássemos e só fôssemos embora no dia seguinte. Poderíamos ficar tranquilos porque nossa estadia correria por conta do Campinense Moto Clube. Agradecemos a proposta e concordamos.

Saímos todos e fomos até a sede do Moto Clube encontrar-nos com um grupo que já nos esperava, para juntos fazermos um passeio pela cidade. Achamos interessante porque assim iríamos conhecê-la melhor, o que realmente aconteceu.

De volta para o centro, nos dirigimos todos até a Rádio Caturité de Campina Grande, onde na entrevista que radialistas fizeram falei ao vivo durante cerca de 10 minutos relatando nossa aventura, a recepção que recebemos dos motociclistas do Campinense Moto Clube e do pessoal da cidade, respondendo inclusive várias perguntas do entrevistador sobre a moto, impressões que tivemos dos lugares por onde passamos, motivos da viagem e por aí afora.

Finda a entrevista, agora era hora de tratar da moto que precisava de alguns consertos, e para isso o pessoal do Campinense nos levou a uma oficina de motos.

Ao chegarmos fomos recebidos por um rapaz chamado Barros, que nos atendeu muito bem. Deu uma olhada geral nela e constatou:

“Será preciso enraiar a roda traseira que ficou um pouco empenada por estar suportando muito peso e trancos na estrada (disse isso porque não sabia da “barbeiragem” do Fernando que bateu com as rodas no meio fio quando quase fomos precipício abaixo); vai ser necessário dar uma solda no paralama traseiro por estar rachado; tem de soldar o descanso central que também está rachado; esticar a corrente; e fazer algumas limpezas e regulagens”. Se quiser pode deixar a moto, que amanhã de manhã já entrego pronta.

Nossos cicerones do Moto Clube logo disseram para que a deixássemos e não nos importássemos com a despesa, porque seria por conta do Clube. Mediante tal gentileza, quem não diria sim? Lógico que concordei!

Colocando-nos nas garupas, companheiros levaram-nos para conhecermos o bairro Zé Pinheiro, considerado o melhor da região. Perguntando-lhes onde ficava determinado local (não queríamos dizer do que se tratava por ser confidencial a entrega dos bilhetes às mães das duas garotas de Ibimirim-PE), responderam ficar bem distante de onde estávamos e mostraram a direção.

À noite reunimo-nos com 12 motociclistas na Praça da Bandeira, local onde os motociclistas costumavam se encontrar, e de lá partimos para um jantar no Restaurante Bolero, levando-nos nas garupas.

Terminado o grande jantar, ao sairmos do Restaurante apresentamos uma desculpa dizendo que íamos dar umas voltas a pé para conhecer melhor as pessoas, as casas, o comércio, e principalmente a vida noturna.

Compreendendo, nos deixaram, mas avisaram que no dia seguinte iriam procurar-nos no Hotel.

Pedindo informações a outras pessoas do local, pegamos uma condução e fomos para as casas das mães da Gabriela e Mariazinha, que ficava exatamente na direção indicada pelos nossos cicerones.

Por estar chovendo naquela oportunidade, tivemos dificuldade para pegar a condução mais adequada e acabamos saltando num lugar ermo e distante da casa delas.

Solicitando uma orientação às pessoas que passavam apressadas devido à chuvinha que caía, conseguimos saber que, para encurtar caminho, não termos de subir ladeiras e sairmos exatamente onde queríamos, era ir por dentro do cemitério porque, se assim não fizéssemos teríamos de dar uma volta muito grande. E com chuva, já viu o transtorno que nos causaria esse outro caminho.

O Fernando, por sua vez, achou melhor que andássemos mais, porém não concordei. A chuva incomodava muito e quanto mais rápido chegássemos à casa das mães das garotas estaríamos livres para irmos embora. Então falei para o Fernando que iríamos mesmo era pelo Cemitério. Ao ouvir isso, quase que ele cai para trás!

Se eu tivesse adivinhado o que iria acontecer, não teria ido por dentro do cemitério.
 
 
 
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Comentários (1)

3/9/2016 04:13:28
SVQJDKHM
Je reviens pas sur la partie des stéréotypes (d’où qu’elle vienne) mais je viens de lire la tribune et je vois quivi217;Ol8#&er a fait un suivi du buget de la couronne de 1500 à 1600 et de 1600 à 1788 puis de l’endettement publique depuis 1790 ! :-O cela ne répond pas à la question sur l’impostion (mais les recettes y figurent) et je dis chapeau bas car rien que cela c’est digne d’admiration bravo !
 

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