Aventura de Motocicleta em 1960

CARUARU – RECIFE

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Vejamos o que fazer: Primeiro perguntei qual o valor do pedágio. O fiscal responde que custava o que hoje poderia corresponder a mais ou menos R$1,00. Quase que caio para trás, pois era uma ninharia. Via-se claramente tratar-se de um valor puramente simbólico (naquele tempo as coisas eram assim, havia o ganho e não a ganância como ocorre atualmente).

Mediante tal circunstância, envergonhado por não ter nem aquela pequena quantia no bolso, me afastei um pouco e aí entrou o Fernando com a conversa dele, dizendo que era pernambucano de tal lugar (conversa, ele era Paraibano de Guarabira) e que agora estava voltando para a terra dele porque não havia dado certo o que pretendeu fazer no Rio de Janeiro, e blá, blá, blá, blá... enquanto eu ia me afastando.

Não demorou e lá veio ele com um papelzinho na mão.

Sem mais conversa, pegamos a moto e partimos. Não andamos 20 metros e a gasolina que já estava na “reserva”, acabara.

Ato contínuo, fiquei junto à moto e o Fernando volta até ao Fiscal com a maior “cara-de-pau” e pergunta se ele poderia arranjar com alguém um pouco de gasolina, já que estávamos perto de Recife.

Quando um caminhãozinho parou na cancela para pagar o pedágio, o fiscal conversou com o motorista e este gentilmente nos arranjou o necessário para chegarmos em Recife. Agradecemos e seguimos adiante.

Chegando em Jaboatão, entreguei o tal passe ao fiscal que ali estava e continuamos viagem. Como naquele tempo não havia os atuais rádios comunicadores, uma guarita não tinha como se comunicar com outra por esse meio. Caso tivesse, o primeiro guarda possivelmente ligaria pedindo que o outro liberasse a passagem.

Liberados e desimpedidos, o caminho é Recife com todo o gás.

Agora, na estrada asfaltada, podíamos prestar mais atenção nas coisas que iam surgindo. E assim, após termos transcorrido um bom pedaço de chão, de repente à nossa direita numa abertura entre frondosas árvores que havia na estrada, descortinava-se esplêndido cenário de belíssima cachoeira que mais nos parecia ser obra-prima de um grande pintor.

A beleza era tanta que me fez parar para apreciá-la em seus detalhes.

Encimando altíssima pedreira com dezenas de metros de altura e cercada de abundante vegetação, límpidas e efusivas águas de um rio saltavam e se abriam numa enorme queda, transformando-se num lindo véu de noiva. Caindo, mas ainda no ar, recebiam forte sopro do vento que em rodopio as espargia e pulverizava tornando-as sutil poeira d’água. Tocadas pelo sol naquele mágico momento, cores lindíssimas resplandeciam formando belíssimo arco-íris, cujas cores pareciam formadas por pedras preciosas multicoloridas.

Que espetáculo! Nem no cinema se vê tamanha magnitude.

Aí percebi que o nordeste, muito falado por sua seca e pelo agreste que também presenciei, deveria ser mostrado nele também existir uma outra parte muito linda e carismática, a qual ora vejo e com ela me fascino.

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Voltando então à nossa realidade da viagem e continuando na trajetória pela estrada, eis que uma surpresa diferente acontece: Numa fração de segundo, um estampido como se fosse um tiro; um roçar rápido e estranho na minha calça; algo que passa velozmente junto a minha coxa de baixo para cima; um farfalhar como se o motor estivesse tossindo e a moto perdendo forças. Assustado, parei para saber o que houve. O Fernando, que também acompanhava preocupado esse fato, perguntou o que poderia ter acontecido. Fui verificar e constatei que a vela de ignição do cabeçote lado esquerdo havia saído. Como e por que, não sabia dizer.

A vela sumira e pela velocidade que passou raspando à minha coxa, deveria ter caído bem longe, possivelmente no mato. Assim sendo, substituí-a pela reserva que trazia na pasta. E como a reserva ficou bem atarraxada, mostrou não ter ficado a rosca afetada. Minha opinião é que a vela, por ter sido mal apertada numa última limpeza, com a trepidação do motor foi desenroscando até ser cuspida longe.

Sanado o problema, continuamos normalmente nossa viagem.

E por incrível que pareça, depois de andarmos mais alguns quilômetros outro barulho parecido com o anterior acontece. Então, logo pensei: Essa porcaria de vela foi cuspida novamente. Mas que nada! Dessa vez o caso foi bem pior porque agora não havia possibilidade do conserto no local. É que acontecera um problema qualquer com a compressão do pistão esquerdo, fazendo com que o motor perdesse talvez 70% das suas forças. Um leigo poderia até pensar: Se tem 2 cilindros, pela lógica perderia somente 50% da sua capacidade. Mas na prática não é assim que acontece.

Então, um olhou para a cara do outro e sem nada falar, dava para entender o que queríamos dizer: E agora, o que fazer?

Bom, o negócio então é pensar por partes, e positivamente: Ela ia consumir mais gasolina devido a perda de compressão e andaria sem grande força, está certo. Mas se podia prosseguir, então vamos continuar e ver o que faremos adiante. O negócio é chegarmos em Recife, e de preferência inteiros. E nossa sorte é que teríamos mais descidas do que subidas para lá chegarmos.

Nas partes planas era tranqüilo andar, pelo fato de não ser exigido da moto muito esforço. Nas descidas então, era mais tranqüilo muito embora não tivesse freio motor, mas como seus freios dianteiro e traseiro estavam perfeitos, nada a temer quanto a isso.

O grande problema estava era nas subidas, principalmente nas mais acentuadas, porque não tinha realmente forças para subir com todo o peso que carregava. Podia acelerar, e o que acontecia era muito barulho saindo pela descarga por causa da descompressão, mas nada de força! O jeito foi: Nas subidas e chegando o momento dela não mais agüentar, nós saltávamos, eu ficava ao lado acelerando e empurrando-a e o Fernando atrás dela empurrando também e íamos correndo junto com ela. Então, ao mesmo tempo em que a empurrávamos, corríamos acompanhando-a até terminar o aclive. Superado aquele trecho, subíamos nela outra vez e íamos embora até aparecer outro aclive acentuado, e assim sucessivamente até chegarmos à cidade do Recife que, sendo plana, não teria problema algum. Ela só não teria velocidade.


FINALMENTE A CHEGADA

28 de fevereiro, 14:00h, 1º dia de carnaval, 15º dia de viagem e estava concluída metade do compromisso por mim estabelecido. Mas acontece que não era mais o final do percurso. Ainda tinha mais. Havia o compromisso que assumimos com as garotas, cujos bilhetes prometemos entregá-los às suas mães em Campina Grande-PB, e para poder cumprir tínhamos de pegar mais estrada pela frente. E olha que por estarmos sem dinheiro, nada tínhamos comido desde aquele lauto café da manhã que nos foi oferecido em Caruaru...
 
 
 
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Comentários (1)

28/6/2016 16:08:04
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